QUEM TEM MEDO DE JOÃO CALVINO?

Posted on October 8, 2016

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"Calvin" :P

Resenha de Short Treatise on the Supper of our Lord, in which is shown the True Institution, Benefit, and Utility”

(Pequeno Tratado sobre a Ceia do Nosso Senhor, no qual se demonstra sua Verdadeira Instituição, Benefício e Utilidade)  – Deixei alguns trechos traduzidos no fim deste post.

Pois bem, eu não achava que fosse — algum dia — ler Calvino.

Além de eu ter uma antipatia séria com as ações políticas dele, desde que estudei sobre a Reforma Protestante — ainda no colégio — como agravante, há os calvinistas, que têm um dom peculiar de serem os cristãos mais chatos da internet.

(O Mitodemus é a regra que prova a exeção. Mas isso, só porque ele é pernambucano. Não importa que ele tenha nascido na Paraíba. Ariano Suassuna também nasceu na Paraíba e é igualmente pernambucano. #ButIDigress

Mas imaginem que, em pleno 1540, a pessoa com a posição mais razoável sobre determinada questão teólogica era ele. Sim, sei que peço para vocês imaginarem algo contraintuitivo. Mas, vejam bem, não se trata de questiúncula.

Na verdade, este opúsculo é sobre uma doutrina essencial para qualquer confissão cristã: A doutrina da Ceia do Senhor.

Na época, este assunto era de fundamental importância para a Reforma, pois a doutrina oficial era a transubstanciação da Missa Católica. E as outras duas opiniões na praça eram a de Lutero e de Zwinglio.

Sem mais delongas, eu recomendo este livro. Ele é simples o suficiente para qualquer cristão conseguir entender seu conteúdo, sem nenhum tipo de vocabulário técnico ou questões abstratas de alta teologia ou coisas assim.
Em que pese a formalidade da linguagem, isso nem chega a ser uma dificuldade. Não sei se está traduzindo em português. Sei que chequei a biblioteca digital do Calvin College, USA
Inclusive, também não há nada de particularmente calvinista nele.

Pelo contrário.

Dividido em 60 parágrafos médios, os primeiros 42 são a respeito da doutrina (Ceia do Senhor) em si. Excelentes.
A única experiência de leitura parecida que eu tive — para fazer uma comparação de longe — foi com o livro de Húdson Taylor sobre o Cântico dos Cânticos.
([book:Union and Communion: Thoughts on the Song of Solomon|18825468] obra LINDA POR DEMAIS DA CONTA, a qual eu também dei 5 estrelas e pus na estante dos favoritos. (Aqui está minha resenha)

Do 43 ao 68, temos a necessária crítica às doutrinas e práticas católicas no tocante à comunhão, devido ao momento histórico. (Era a Reforma, HELLOWWW!)

Do 54 em diante, encontramos um João Calvino, doutor da Igreja, que além de prestar um serviço de historiografia, em minha impressão, faz por merecer a bem-aventurança dos pacificadores.
Explicando:

Ele narra a querela entre Lutero e Zwinglio sobre a mesma doutrina.
Observe-se que os três estavam rompendo com o catolicismo.
Enquanto os outros dois se degladiavam turronamente, Calvino simplesmente considerou a questão de maneira apropriada.
E ainda aproveitou a oportunidade para dar uma “regulagem” gentil, serena e caridosa em seus camaradas reformadores.
Não sei se eles tiveram a humildades de se beneficiarem. MAS COM CERTEZA, DEVERIAM.

Enfim…

…MORAL DA HISTÓRIA: Pelo menos um livro bom Calvino escreveu. Do resto, eu não saberia falar. .

Ainda pretendo ler a instituta sobre o mesmo assunto, um pouco mais longa. Mas se for tão boa quanto este pequeno tratado, com certeza valerá a pena:

Algumas curiosidades:
*Em sua estrutura dividida em “partes”, o livro ainda é um pouco reminiscente do estilo dos filósofos escolásticos, mas Calvino segue antes distinções naturais ao conteúdo que tinha para expressar do que as regras de retórica que aqueles filósofos usavam.

**Repito que o estilo é simples, e nem por isso deixa de ser bonito.

****É bem capaz que esse texto seja a melhor sistematização existente da doutrina da Ceia para os evangélicos em geral hoje em dia.

*****Concepções de sacramentos em geral, representação e cerimônia são tratadas como questões preliminares que precisam ser esclarecidas para servirem de base ao assunto principal. Isso também é feito de forma que me parece muito proveitosa para a contemporaneidade.

******Muitas coisas sublinháveis/citáveis. Muitas mesmo.
Não para ficar arengando nas redes sociais, mas para esclarecimento, educação cristã, edificação, até.

#ficaAdica
Short Treatise on the Supper of our Lord, in which is shown the True Institution, Benefit, and UtilityShort Treatise on the Supper of our Lord, in which is shown the True Institution, Benefit, and Utility by John Calvin
My rating: 5 of 5 stars

QUEM TEM MEDO DE JOÃO CALVINO?

Melhor que Hobbes, em qualquer instância :p

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  1. Jesus Cristo, o único alimento espiritual para nossas almas

Pois vendo que somos tão fracos que não podemos recebê-lo com verdadeira confiança de coração, quando ele é apresentado a nós simplesmente por doutrina e pregação, o Pai da misericórdia, não desdenhando de condescender, neste assunto, à nossa enfermidade, achou-se satisfeito em adicionar à sua palavra um sinal visível, pelo qual ele poderia representar a substância das suas promessas, para nos confirmar e fortificar, ao nos libertar de toda dúvida e incerteza.

 

  1. A Miséria do Homem

Assim, no que diz respeito ao espírito, bem como ao corpo, nós somos mais que miseráveis se permanecermos circunscritos a nós mesmos, e essa miséria não pode produzir senão grande tristeza e angústia de espírito.

 

  1. A Ceia nos Convida às Promessas de Salvação

Quaisquer que sejam os materiais de morte que possam estar em nós, ele, não obstante, nos dá vida.

 

  1. Jesus Cristo é a substância dos sacramentos.

Tenho que dizer que a substância dos sacramentos é o Senhor Jesus, e a eficácia deles, as graças e bênçãos que adquirimos pelos meios Dele.(…) Nós não devemos simplesmente comungar em seu corpo e sangue, sem nenhuma outra consideração, mas com o intuito de receber o fruto, para nós derivado, de sua morte e paixão.

 

  1. O sacramento é Representado por Sinais Visíveis

(…) a comunhão que temos no corpo e sangue do Senhor Jesus. É um mistério espiritual que não pode ser visto pelo olho nem compreendido pelo entendimento humano. É, portanto, figurado para nós por sinais visíveis, de acordo com o que a nossa fraqueza requer, de tal maneira, no entanto, que não é figura vazia, mas está combinada com a realidade e a substância (…) não apenas representa, mas apresenta para nós (…)

 

  1. O verdadeiro corpo e sangue de Cristo, recebidos somente por fé

Se Deus não pode enganar ou mentir, segue-se que o [sacramento] realiza tudo o que significa (…) Se ele nos desse apenas pão e vinho, deixando a realidade espiritual para trás, não teria sido sob falsas cores que essa ordenança foi instituída?

 

  1. A substância interna é conjunta com os sinais visíveis

(…) O corpo de Cristo é comunicado a nós para que sejamos feitos participantes dele (…) Daí, já que a virtude do Espírito Santo é conjunta com os sacramentos quando os recebemos devidamente, temos razão para esperar que eles provarão ser um bom meio e um cuidado para nos fazer crescer e avançar em santidade de vida e, especialmente, em caridade.

  1. A imperfeição dos crentes deveria, antes, incliná-los a fazer uso da Ceia.

Apenas não nos deixe vazios de fé e arrependimento (…)

 

  1. Impropriedade em abster-se por motivos frívolos – Fingir indignidade em nós mesmos.

Antes lutar contra todos os impedimentos que o diabo lança em nosso caminho, e não ficar excluído de um benefício tão grande, e de todas as graças consequentes disso.

 

  1. Abster-se por causa de presumida indignidade em outros

Mas o método adequado de afastar-se da companhia dos ímpios não é abandonar a comunhão da Igreja.

 

  1. Erros conectados com a abominação da Missa

Dizemos que, para derivar benefícios da Ceia, não é necessário trazer nada de nosso para merecer aquilo que pedimos. Nós temos apenas que receber por fé a graça que é apresentada a nós, e que não reside no sacramento, mas nos aponta para a sua procedência da cruz de Cristo.

 

  1. É da natureza de um sacramento que a substância do sinal visível se mantenha

(…) a representação inteira, que o Senhor achou por bem nos dar em condescendência a nossa fraqueza, seria perdida, se o pão não se mantivesse. As palavras que nosso Senhor utiliza implicam em tanto quanto se ele tivesse tido: Tal como o homem é sustentando e mantido em seu corpo comendo pão, minha carne é o alimento espiritual pelo qual as almas são vivificadas. E mais, que seria da outra similitude que São Paulo emprega? Como vários grãos são misturados para se formar um pão, devemos nós juntos sermos um, porque tomamos parte de um pão.

 

  1. Falsa opinião sobre a presença corpórea de cristo na Ceia.

(…) O Senhor, na Terra, tomou nossa humanidade, e então a exaltou ao Céu, retirando-a da condição mortal

 

  1. Outros abusos decorrentes de uma presença corpórea imaginária

O mandamento que nos foi dado não é adorar, mas tomar e comer.

 

  1. A Palavra deve sempre acompanhar os sacramentos

(…) explicação completa da ordenança e completa exposição das promessas (…)

 

  1. As cerimônias da antiga Lei, porque apontadas – As dos papistas, censuráveis

(…) distrair o povo sem fazer-lhes bem algum (…)

 

  1. A Morte e Paixão do Nosso Senhor, o Sacrifício Único e Perfeito

(…) os sinais visíveis retêm sua verdadeira substância, para representar a realidade espiritual sobre a qual conversamos.

 

  1. Visão dos cristãos esclarecidos sobre a Ceia

(…) é ainda mais perverso celebrar a Ceia com gesticulação e pantomima, enquanto nenhuma doutrina é exposta, ou melhor, enquanto toda doutrina é encoberta, como se a Ceia fosse um tipo de truque mágico.

 

  1. Deus, às vezes, permite que seu próprio povo caia em erro

Pois não é coisa nova para o Senhor deixar seus servos em algum grau de ignorância, e suportar que tenham debates entre si — não para deixá-los para sempre, mas apenas por um tempo, para mantê-los humildes.

 

  1. Dever dos servos do Senhor a respeito do avanço da Verdade

Os dois partidos [Lutero e Zwinglio] falharam ao não ter paciência de ouvir um ao outro, para seguir a verdade sem paixão, quando ela seria encontrada.

 

  1. Concórdia fraternal entre as igrejas

(…) esta santa ordenança (…) devemos afirmar que é feita eficaz pelo poder secreto e milagroso de Deus, e que o Espírito de Deus é o laço de participação, sendo esta a razão pela qual é chamada espiritual.

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Menção Honrosa para o responsável por eu ter ido buscar esta leitura:

#homemdeDeus #boainfluência

Mitodemus

Mitodemus

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