Como ele pode ser tão triste?

Posted on February 27, 2016

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ÁSSIA TURGUENIÊV COSSAC NAIFYY

Sobre meu amigo Turgueniêv

Tudo começa com o volume muito simples, porém cuidadosamente chic, da Cosac Naify, à venda uma melancólica liquidação do que resta da editora, na Amazon do Brasil.

Em Ássia, eu reencontrei as duas faces faces da moeda Turguêniev, e ainda um algo mais de único.

A primeira face, é aquela de Fumaça, romance onde o que predomina é a existência acomodada, onde qualquer lugar é um deserto aborrecido em meio às distrações quotidianas; no fundo, a busca por algo autêntico e novo que simplesmente não está lá.

A outra face, no último parágrafo, de Ássia, é a mesma que aparece no último parágrafo de Pais e Filhos. Um Turguêniev que afirma que o sentido da vida só poderia estar no Amor.

Turguêniev não era cínico nem nihilista. E quanto à vida aborrecida, ele conhecia muito bem, pois era a que levava como expatriado russo do Século XIX, tentando passar o tempo calma e luxuosamente em variados locais europeus.

Já o Amor, ele é justo e dá testemunho de si mesmo.

Por isso, não julgue Turguêniev como um romântico bobo. Como, de forma bem melhor que eu, observaria C.S Lewis, ele estava usando essas duas histórias sobre relacionamentos para apontar para algo maior.

Continuo indicando aquela obra prima da literatura universal chamada Pais e Filhos, para que se realmente entenda quem é o autor.

Minha própria observação é que talvez a intenção dele não fosse essa, mas, escrevendo honesta e verdadeiramente, preocupado com a verdade e a beleza, era a este efeito que ele acabava chegando.

O que Ássia tem de único – no entanto – é a prosa de uma poeticidade leve e resplandecente. Turguêniev nos leva à “Alemanha Romântica”, mas a uma versão dela que é totalmente inventada – como todas as outras – e também toda sua, como uma pequena relíquia de viagem, bem-feita e delicada, uma lembrancinha preciosa.

Para clarear por contraste, Goethe, que não era russo, “retratava”. Por tanto, todo o peso da realidade e das suas trevas alemãs estava por lá.

Já Turguêniev, nada alemão, e comprometido apenas com a escrita de sua novelinha, não tinha que remeter nada em sua Alemanha romântica ao egocentrismo devorador do Werther ou às sombras malignas do Fausto ou a insanidade mental de Novalis e Hölderlin; muito, muito mais mais impensáveis na Alemanha de Turguêniev seriam a breguice folclórica, ou alguma algum bar recendendo à chucrute, salsicha e cerveja.

Por isso mesmo, a história começa quando um russo encontra russos.

E para resumir, Ássia é um conto doce e triste, que cintila. Cada página sua é docemente melancólica, pois que verossível – assim é a vida, paciência – mas que nos é entregue em prosa cintilitante.

Soube que Tolstói odiou, mas estou pouco me lixando para os motivos.

ÁSSIA TURGUENIÊV COSSAC NAIFYY

página 38

 

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