Sobre uma Escola –

Posted on March 17, 2015

0



Este texto me foi pedido como parte das comemorações de 20 anos da Escola de Aplicação Ivonita alves guerra, em Garanhuns – PE, onde eu estudei dos 12 aos 14 (1996-1998)

ESCOLA DE APLICAÇÃO:

Reminiscências particulares sobre um projeto e seu legado

Ou..  ” A Hogwarts que eu tive” #ravenclaw #corvinal

A Escola de Aplicação Ivonita Alves Guerra, em 2015, completa 20 anos. E hoje, ouvir falar dela talvez evoque apenas a impressão de mais uma opção boa e segura em meio ao diversificado patrimônio de instituições educacionais de Garanhuns.

No entanto, isto foi algo que teve de ser construído.

Em 1996, aos 11, 12 anos de idade, eu mesma fui estudar lá, portanto lembro de como tudo começou. Agora, sou jornalista formada pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduanda em Comunicação Digital. Trabalho numa Fundação de Amparo à Pesquisa, e além das lembranças de três anos formativos, inspiradores e encantadores, tenho perspectiva o suficiente para analisar o que a criação desta escola significava naquele momento.

Uma lembrança essencial, para começar, é de uma rápida conversa com o professor Luiz Tenório de Carvalho, então diretor da Faculdade de Formação de professores de Garanhuns (UPE-FFPG) e da própria Escola de Aplicação.

Naquela época, ao ver alguns alunos da última série antes do Ensino Médio saindo do Laboratório de Informática, ele, com sua costumeira animação, parou para cumprimentar e ser cumprimentado, e nos explicou como nós podíamos estar ali devido ao fato de que, algum tempo antes, ele havia utilizado um recurso muito significativo das verbas da Faculdade para trazer e instalar o primeiro roteador de Garanhuns.

Eu não conhecia essa palavra nem sabia o que era o equipamento. Hoje, existe um em qualquer bom celular. Mas em 1998, provavelmente, devia custar algo “astronômico”, como R$15 mil, ou R$50 mil. Garanto que nos meus 14 anos eu não tinha a mínima noção disso, de dinheiro assim, então me perdoem esta falha específica de memória.

O que importa é que o Professor Luiz me fez entender que aquela peça tinha sido necessária para trazer a internet à Garanhuns.

Percebam que, na falta desta iniciativa, o dispêndio e os requerimentos técnicos e políticos para a vinda de um primeiro ponto de conectividade em nosso município teriam ficado à mercê dos interesses dos comerciantes ou da burocracia e recursos limitados da Prefeitura. Prefiro não ter convivido com a espera. Aquele “laboratório de informática” foi onde eu fiquei online pela primeira vez da vida.

E aquela informação, junto com a compreensão que ela me trouxe, me deixou tão empolgada e tão agradecida ao Diretor por ele ter tornado isso possível, que nunca mais esqueci. Para mim, foi significativo como jovem pessoa, estudante e cidadã.

E é à luz dessa lembrança da visão e inciativa do Professor Luiz Tenório que eu consigo, hoje, discernir a Escola de Aplicação como projeto e como legado.

  O Projeto

Tudo começa a partir do excelente prédio da Faculdade: além das salas de aula, biblioteca, laboratórios e salas informática, com internet – a maior novidade da época. E havia plenos espaços de convivência, jardins, e quadras de esportes. Tudo isso funcionava plenamente nos cursos de graduação à noite, mas ficava ocioso durante o dia. Então, que tal, com um pouco de idealismo, mais um tanto de respaldo estatal e muito trabalho duro, trazer novas oportunidades e perspectivas à comunidade garanhuense?

No conceito mesmo de uma escola de aplicação está a meta de viabilizar um ambiente educacional que torne possíveis experimentos didáticos na busca das melhores práticas em ensino e aprendizado.

Lá, as turmas de 30 alunos no máximo, em séries A e B para cada ano, davam aos professores uma quantidade razoável de alunos a serem atendidos por aula. Os estudantes entravam com um teste – longo e substancial – de Português e Matemática, que garantia tanto um nivelamento conveniente para se iniciar um trabalho sólido quanto que o acesso fosse dado aos mais estudiosos, e não a quem pudesse comprar o privilégio de estudar na “escola da faculdade”.

 Privilégio?

Lembro que, naquela época, o time inicial de professores e coordenadores envolvia nomes conceituados que davam aula nos cursos superiores ou nos melhores colégios particulares da cidade.

Hoje percebo que isso denotava o respaldo que o Professor Luiz Tenório ganhou de seus pares, com a ideia de educar jovens de maneira diferenciada – o que de certa forma também envolveu um fantástico grau de vocação e compromisso da parte dos professores que se dispuseram, sendo docentes bem-estabelecidos, mas aceitando um desafio profissional que, entre outras coisas, envolvia aturar – e maturar – adolescentes de 11 a 15 anos.

Lembro também que nos dois anos seguintes as coisas ficariam mais dinâmicas, com professores ainda cursando suas licenciaturas também passando a cumprir seus estágios na EA. Imagino quantos formandos do curso de Pedagogia, por exemplo, podem ter encontrado lá campo de pesquisa para seus trabalhos de conclusão de curso ou monografias de pós-graduação.

Por outro lado, também foi aberto mais um horário de oportunidades para os bolsistas que cuidavam das bibliotecas e do laboratório de Ciências que, salvo engano, servia aos cursos de Química e Biologia, e também para nossas aulas práticas.

Particularmente, fui para as áreas de Humanas, mas 16 anos depois ainda guardo a recordação de “achar bonito” as moças e rapazes “da faculdade” que passavam as manhãs por lá, entre tubos de ensaio e substâncias que, para mim, soavam admiravelmente científicas. Creio que a convivência possa ter despertado vocações.

Recordo um grupo de teatro, capitaneado por Marcos Freitas, com aulas à tarde, onde muitos descobriram ou um hobby ou seu rumo…

Quanto a mim, não consigo imaginar minha adolescência e formação cultural sem o acesso praticamente irrestrito à biblioteca da FFPG naqueles anos, onde li meus primeiros volumes de Dostoievski e encontrei um livro do autor que veio a se tornar objeto do meu tcc na faculdade, Lúcio Cardoso, além dos volumes físicos das enciclopédias Barsa, numa época em que o Google e a Wikipédia simplesmente não tinham sido inventados.

Quando a pequena livraria universitária começou a funcionar no Pátio em que tínhamos nosso recreio, o menino que gostava de mim – mesmo sem esperança –aproveitou para comprar “O Príncipe” de Maquiavel e me dar de presente… Também, ainda não tinham fundado a Martin Claret e a L&PM Pocket.

Sempre serei grata por ter tido este ambiente, principalmente por ter estado próxima de professores e universitários exemplares em anos tão importantes para a formação do caráter do jovem. O fato é que, em parte devido ao projeto em si, em parte devido ao carisma e a forma de trabalhar de Luiz Tenório e sua equipe, também havia bastante cuidado e generosidade naquele ambiente.

Vou dar três exemplos que comigo permaneceram.

Lembro que, perto de um Sete de Setembro, não havia instrumentos o suficiente para algumas pessoas que estavam “sonhando” em tocar na banda. Adolescentes, como todos sabem, sonham muito a sério. Foi quando, novamente por acaso, presenciei outra conversa que para mim foi marcante, em que o Professor Luiz Tenório dava carta branca para um garoto e uma garota da minha turma a usarem o nome dele para conseguirem instrumentos emprestados no Colégio Estadual. E, por causa, disso, a minha memória guardou os dois no dia do desfile, tocando.

Aliás, este pequeno favor veio a ser retribuído mais do que generosamente quando o Colégio Estadual entrou em reforma e algumas turmas com faixas de idade semelhantes à nossa vieram ocupar o primeiro andar do prédio.

Assim, houve mais uma oportunidade de democratização e diversificação de convivência: A Feira de Ciências deles aconteceu lá, para sorte nossa.

Outra situação que foi conduzida de forma exemplar, que guardo comigo até hoje, foi quando uma das meninas da oitava série, em 1998, engravidou. Havia uma média de 180 alunos, mas a familiaridade que três ou quatro anos de convivência provocavam, fazia aquele universo parecer ainda menor, mais familiar.

Quando “todo mundo soube”, o Professor Petrúcio Lins, que então substituira o Professor Luiz Tenório na direção FFPG, muito mais enquanto Biólogo do que Diretor, fez questão de passar de sala em sala para ter uma conversa franca e esclarecedora, humanizando o assunto, para evitar mistificações e a possibilidade de atitudes ignorantes ou preconceituosas. Ou o exemplo.

E poucos dias depois, uma enfermeira foi disponibilizada para passar duas horas com cada turma, para formalizar a inciativa de educação sexual e, principalmente, responder perguntas e esclarecer dúvidas. Não lembro de nada parecido nas outras duas escolas que frequentei, antes e depois da Aplicação.

Outra nota que ainda ressoa em mim, foram os princípios de formação ideológica aberta e consciente possibilitada pelas disciplinas História, História de Pernambuco e Geografia, reponsabilidade de Rosa Tenório de Carvalho, Patrícia Tenório e Carlos Guedes, respectivamente.

Aliás, acho até cabível comentar que, do alto dos picos de maturidade da minha pré-adolescência, eu resolvi que iria mudar de escola e passar no teste da “Aplicação” porque, ao entrar na quinta série e decidir ser jornalista, comecei a perceber “irreconciliáveis” divergências de mentalidade com o lugar onde eu estivera desde o Jardim…

Mas já que citei nomes, aproveito para registrar minha gratidão pessoal à Socorro Feitosa e Socorro Rezende, mestras do meu instrumento de trabalho, a Língua Portuguesa, e a Carlos Janduí e Ari Jackson que, graças a Deus, nunca me reprovaram em Geometria, apesar da minha óbvia limitação.

 O Legado

Garanhuns, me parece, por décadas e décadas a fio, manteve a peculiaridade de dar às suas gerações uma educação privilegiada, e surpreendentemente democratizada, em termos de acesso e estratificação social. Tinha gente que ia herdar loja na Santo Antônio na minha classe, tinha gente que morava em rua sem calçamento do Magano, na mesma classe. Teve gente no colégio que só andava à pé que aprendeu a falar inglês primeiro do que gente que tinha ido para a Disney. Teve família que voltou de São Paulo para matricular a filha adolescente, porque sabia que em Garanhuns era assim.

Pois o Colégio Presbiteriano XXV de Novembro tem estado lá desde que a vila foi elevada à cidade. Pois os dois grandes colégios católicos, Diocesano e Santa Sofia, viveram tempos áureos durante o Século XX, como internatos famosos por todo o país, e junto ao Colégio Monsenhor Adelmar, mantiveram o zelo educativo. Pois as escolinhas particulares sempre honraram uma alfabetização bem-feita. Pois os colégios públicos estaduais e municipais sempre mandaram e continuam mandando muitas gerações aos ensinos técnico e superior.

Refletindo nesse contexto, não foi surpresa quando nosso conterrâneo de Caetés, o ex-Presidente Lula, começou a usar seu mandato para estabelecer a cidade como vocacionada para polo de Ensino Superior. E para mim, foi perfeitamente explicável e fez todo o sentido que, em 2013, Garanhuns já tivesse alcançado as metas do Ideb esperadas apenas para 2015.

E foi nessa realidade, com suas potencialidades e também com seus problemas, que há duas décadas, a Escola de Aplicação soube encontrar seu público, sua vocação e fazer uma diferença específica. Soube ser caminho para os que precisaram dela. Eu agradeço.

… E mesmo que no Ensino Médio, à contragosto, pela família, não sem tentativas de conspiração, eu tenha saído de lá e ido para o extinto Colégio Meridional, e isso tenha sido mais um tijolo decisivo – pois devido às bases sólidas da educação em sua cidade, a menina de Garanhuns passou em quarto lugar no vestibular de uma Universidade Federal sem ter feito cursinho – os três anos na Escola de Aplicação é que foram indeléveis.

 Para o caso de possíveis anacronismos no texto, deixo desculpas adiantadas. Mudei faz tempo e a cidade, mudou muito mais. A realidade é algo complexo, porém afeição não é reportagem.

Advertisements