Senta, que lá vem…

Posted on May 15, 2014

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De que maneira o seu grau de pensamento relativista ou idealista poderia determinar o modo como você lida com os problemas éticos em sua profissão?

Responder esta questão foi a #tarefinha da aula de Ética, na qual eu tirei 10.Mas isso pra mim foi engraçado, porque tem uma certa anedota intelectual por trás 😛

Para começo de conversa, a professora – jornalista, advogada e dinâmica – conseguiu, de acordo com o consenso dos meus colegas, dar a aula de Ética mais interessante da vida toda de quase todas as pessoas que lá estavam.

E foi uma boa aula, de fato: é preciso apreciar que ela tinha o problema espinhoso de falar de Ética em uma manhã e uma tarde e fazer uma avaliação. Esse tipo de situação geralmente tem um potencial terrível de descambar para um “eu finjo de cá e vocês figem de lá”, mas o que aconteceu de verdade foi uma ocasião proveitosa para todos.

Começou assim: ela aplicou anonimante este teste – que é puro pragmatismo de americano que acha que pode quantificar tudo. Mas esse problema deles é falta de alguns séculos de substrato de formação cultural… com tudo, eles são assim, #cof #cof

No fim, eu dei 85 no “idealismo” e 16 no relativismo. E de acordo com o “intelectual americano”, hehehe, essa pontuação no idealismo, me torna uma A-B-SO-LU-TIS-TA, ideologicamente. #SERTO

Aí, veio a questão, para ser respondida com uma redação em sala. O problema é que a professora disse para gente tomar a posição do teste e usar Aristóteles, Kant e Mill, o Stuart.#SERTO

É claro que eu não fiz isso. Meu cérebro de quem já leu Tomás de Aquino, Lukács e SURPRESA, Aristóteles, #mesmo, me impediu. E impede.

Para ser bem sincera, eu só conseguia lembrar de algo  que tinha lido poucas semanas antes da aula, por uma grande coincidência – num livro de Caio Túlio Costa sobre ética jornalista voltada aos meios digitais, onde se conta a respeito dessa #treta específica entre Kant e Benjamim Constant

Abacaxi ou Pepino?
“Discussão Complicada”

Kant Constant 002   Fiquei com pena de não usar todo o meu humor de Sheldor Cooper em sala de aula e declarar:

“Se Raabe tivesse lido Kant, ela nunca iria ter chegado ao Novo Testamento”. (ref. Hebreus 11) (ref.Josué 2)

E aí era a parte em que ninguém ia entender nada 😛

MAS AGORA CHEGA A PARTE ENGRAÇADA: Quando eu entreguei o papel e ela deu uma olhada, trouxe de volta para mim e pediu para que eu identificasse em quais parágrafos eu tinha usado Aristóteles, Kant e Mill.

Hã?

#comoassim?

¬¬

“Porque é uma avaliação, e vai ficar documentada”.

Pois é, galera, existem ementas a serem cumpridas, mas…

… porém, contudo, todavia, no entanto, aqui é onde #confesso que enrolei e escolhi um parágrafo tão “justificável” quanto possível, no texto pronto, para por o nome de cada um deles entre parênteses, depois dos pontos finais. E a tia sabe, claro

Mas a verdade é a seguinte: Só me foi possível escrever este texto graças a outros três caras:

  • 2.  Meu queridíssimo Terry Eagleton, com quem eu aprendi o que a palavra “realismo” significa filosoficamente – e que faz um trabalho excelente em suas críticas substanciais ao pós-modernismo e tudo que ele engloba. (não importa que o link seja do Umberto Eco, nesta ocasião específica, #MWHAHAHAHAHA)
  •  3. Alain Badiou, o francês ateu comunista que escreveu um livro extremamente singular sobre o apóstolo Paulo, no qual, entre outras coisas aproveitou para demolir com a crítica nietszchiana e mostrar que o suposto machismo paulino é exatamente o contrário… mas isso não vem ao caso agora.

Ao texto, então, depois deste preâmbulo de 500 palavras, num caso totalmente inadequado aos meios digitais, mesmo na dita blogosfera,(mas é só assim que eu sei fazer).

“Uma das vantagens de se lidar com os dilemas éticos no dia a dia de trabalho é o realismo, ou seja: situações concretas trazem em si uma substância de realidade, do grego “res”, “coisa”. (Aristóteles) – foi bem aqui que eu escrevi o nome dele :/ …como vocês devem ter imaginado há 2 segundos atrás… onde eu pus “Kant” e “Mill” na versão a limpo que entreguei pra ela, não lembro mais. Estou blogando a partir do rascunho.

Numa situação concreta, os polos das cargas subjetiva e objetiva deixam de estar em mera oposição teórica para serem reconfigurados numa relação dinâmica. Enquanto pessoa que se identifica com uma perspectiva teoricamente dita “idealista”, minha posição fundamental para abordar esta questão é a seguinte: eu acredito na existência objetiva de valores.

Sem negar que a maior parte daquilo que se reconhece enquanto “valor” é culturalmente determinada, não obstante, eu considero que é uma posição plenamente defensável afirmar o fato de que há valores que são concretos e universais, como concreta e universal é a nossa humanidade em comum.

Esta engloba todas as necessidades biológicas, universais e comuns à espécie humana, todas as determinações e possibilidades existenciais compartilhadas que o planeta específico que nos serve de casa comum nos apresenta. E também reconhecidamente objetiva e universal é o que se chama de “condição humana”, ou seja, nossa finitude, nossa mortalidade e nossa capacidade para intuições morais e transcendentais.Tudo isto, em minha opinião, constitui situações – ou situamentos – fundadores de valor, necessidades de base sobre as quais as contingências se complexificam – e, portanto, viabilizadoras de um mínimo de razoabilidade ética universalista.

Quanto aos “mores” e a moral, ligado aos particulares, ao dia a dia e às dimensões de inescapável subjetividade, me parece que fundam a necessidade e viabilizam a existência e a concreção dos códigos reguladores de profissões e condutas. Ou seja, em situações de trabalho e serviço, é reconhecida a existência e o agir de indivíduos que declaram optar pelo subjetivismo moral. Mesmo assim, há um certo tipo, ou certas instâncias, de algo como um “contrato social para a situação”, ou ciscunstancial, em que estas pessoas também se comprometem perante à sociedade e ao coletivo a respeitarem certos parêmetros enquanto objetivos, em sua concretude de realidade exterior.

Ainda que determinado indivíduo “ache assim”, o código de ética e conduta o “obriga” a determinadas condutas e/ou lhe veda outras. Na vida profissional e em sociedade ainda que determinados valores sejam individualmente considerados como casos de “mas isso é relativo”, há acordos tácitos (e também prévios) sobre o que deve ser objetivado.

O subjetivismo relativista é o melhor pretexto para uma prática profissional “no automático”, usando o mero pragmatismo para escamotear uma dimensão mais complexa de responsabilidade – o que, aliás, é do gosto do poder e do mercado. (Mill) deve ter posto Mill bem aqui, pelo que me lembro

Valores objetivos, por outro lado, servem como base referencial ou marcos lógicos para possibilitar a reflexão no agir e na conduta face a cada situação diversa e específica, tanto no campo do possível quando no do realmente existente, ao longo da vida profissional e pessoal”.

 

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