Trabalho da Especialização: Compartilhando minha tarefa de Casa

Posted on May 12, 2013

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A Evolução da Comunicação Humana:
Da Pré-História até Jesus

Trabalho apresentando como requisito parcial para 
obtenção de aprovação na disciplina Sociedade da 
Informação: Novas Mídias e Cultura Digital, do curso
de Especialização em Comunicação Digital, Webjornalismo
e Novas Mídias, na Faculdade Integrada Tiradentes

Solicitado pelo professor mestre Arnaldo Ferreira
Maceió, abril de 2013

A tarefa do historiador seria a ressaltar o que é essencial e significativo na longa
 e complexa série de acontecimentos que examina

                                                  Vere Gordon Childe, O que Aconteceu na História


Introdução

Este trabalho é uma vista breve e sumária da evolução da comunicação, a partir
dos tempos assim chamados pré-históricos até aquele período da Idade Antiga em 
que viveu Jesus de Nazaré. 

A história da comunicação costuma tomar como fio condutor metodológico a história 
de seus meios. No entanto, a periodização proposta remota ao tempo em que a 
humanidade estava principiando a se autoconstruir, quando as fronteiras biológicas 
da sociabilidade especificamente humana estavam sendo cruzadas, através de 
fenômenos como o surgimento da fala e demais formas de linguagens enquanto 
convenção social, que começavam a ser “descobertas” e articuladas.

Por isto, o foco deste trabalho está em usos da comunicação social enquanto dado 
distintivo ou especialmente significativo para os construtos de sociabilidade humana 
encontrados em momentos distintos do período abordado.

Na última parte, “Jesus”, permite-se tecer reflexões sobre possibilidades de 
significado e potencialidades do assunto em questão.

A Pré-História

Os tempos pré-históricos foram chamados assim por um critério de oposição, por 
corresponderem a uma época anterior à História entendida como narração histórica 
escrita. Um fundamento da história da comunicação, no entanto, é a emergência da 
fala, quando a aptidão biológica de articular sons arbitrários torna-se capacidade 
cultural de convencionar socialmente um significado para eles. A partir daí, os termos
“representação” e “informação” já podem começar a ser abordados cientificamente.  

Já a prática das sociedades humanas de registrarem em meio físico os 
acontecimentos pertinentes a si própria como coletividade, começa por volta de 35
mil antes de Cristo, nas cavernas, com os “rabiscos” paleolíticos, ainda do período 
nomádico. Em 30 mil A.C., o homem de Cro-Magnon usava um calendário lunar 
rudimentar para as suas caçadas. Em 8 mil A.C, já no contexto da agricultura, há os
primeiros “registros contábeis” em cones de argila.   

Antiguidade

O passo decisivo para o surgimento da escrita – e assim, convencionalmente, passa-
se à História propriamente dita – tem seu fundamento em 3.100 A.C, quando os 
sumérios começam a usar ideogramas, ou seja, as representações pictóricas 
“desnaturalizam-se”, deixando-se de ser tentativa de reprodução da natureza - como
os bisões de Lascaux e Altamira - e emergindo como signo, em seu potencial de 
representação abstrata – por exemplo o caractere “bá”, de boi, dos sumérios e 
egípcios. 

Por volta de 100 anos mais tarde, emerge o primeiro sistema de escrita. Há 4 mil e 13 
anos atrás, (2 mil A.C.), os fenícios, civilização caracterizada por navegação e 
comércio – numa piscadela distante para a expansão europeia na época de 
Gutemberg e a ideia de aldeia global de McLuhan - sistematizaram o primeiro 
alfabeto.

Sobre esta fase, Peter Burke e Asa Briggs, na introdução de “Uma História Social da 
Mídia”, comentam a hipótese de uma mudança de mentalidade entre as culturais 
orais e as que adquiriram a capacidade de escrever “(...) o papel da escrita na 
'descentralização' das ideias, ou seja, na sua retirada das situações face a face nas 
quais foram originalmente formuladas, de modo a aplicá-las em outro lugar”. (BURKE,
2006, p. 22)

Tal descentralização de ideias, apesar de abrir possibilidades de expansão 
fundamentais para a complexificação dos meios produção e heterogeneização
cultural no Mundo Antigo, no entanto, não significou necessariamente igual 
descentralização de poder, e a partir daqui a história da comunicação fica muito mais 
intrincadamente interligada às formas sócio-culturais de quem comunicava-se. 

Por exemplo: Ainda que a arte e a escrita tenham adquirido caminhos distintos, as 
civilizações metropolitanas e politeístas da Antiguidade, como egípcios e diversos 
mandatários da Babilônia, usavam o potencial de comunicação visual da arquitetura e 
artes plásticas (ídolos) para casar propagação ideológica como afirmação 
recontinuada de poder. O secular Império Assírio desenvolveu um eficiente sistema 
de correios, a partir de seu pioneirismo em estradas. 

Já os hebreus, com sua civilização de cunho ainda distintamente tribal, pastoril e 
fundamentalmente avessa à iconografia religiosa e pictorização do sagrado, voltaram-
se à palavra escrita como espaço para coadunar o ordenamento do poder 
sobrenatural com o exercício de poder societário, através da Lei, os 10 Mandamentos
escritos, produzidos em 1250 A.C. No período de 900 e 700 A.C., escreviam-se os 
primeiros livros do Velho Testamento. Documentavam-se ali os Salmos de Davi e em 
Atenas, habitada por volta de 200 mil pessoas, a “Ilíada” e a “Odisséia” de Homero.   

Ainda de acordo com a introdução de Burke & Briggs, Harold Innis, em sua obra 
pioneira Empire and Communications (1951), trabalha a hipótese de que “o poder do
monopólio sobre a escrita exercido pelos sacerdotes egípcios na idade dos hieroglifos
havia sido subvertido pelos gregos e seu alfabeto”. (BURKE, 2006, p. 16). 

Na Grécia em 472 A.C, surge a forma da tragédia, e em 295 A.C., Euclides codifica os 
princípios da Geometria em seu livro “Elementos”, mesma data apontada para o 
Velho Testamento ser traduzido pela primeira vez, do hebraico para o grego, o que 
nos leva a última sessão histórica a ser explorada neste breve comentário.

Jesus


“Da pré-história até o Império Romano”, seria um tema que autorizaria menos 
heterodoxia metodológica do que “Da pré-história até Jesus” o faz. No entanto, este
império ainda duraria até o ano 476, e é a figura do Nazareno que serve de marco zero 
no calendário ocidental, o que mantém a reflexão proposta ainda no âmbito das 
civilizações orientais, em que pesem as inovações romanas em formas de imbuir 
comunicação e poder, como o Direito Romano, a retórica e a estetização das 
ideologias políticas. 

Ao contrário da literatura e filosofia gregas, o Novo Testamento não foi escrito em 
grego clássico, gramaticalmente vernáculo, mas sim em grego koiné (comum), do 
povo, o dialeto que servia de língua franca na porção/era helenística do imperialismo
em questão. 

De acordo com o filósofo francês Alain Badiou, declaramente ateu, adepto do 
materialismo histórico e socialismo revolucionário, em seu livro “São Paulo: A 
Fundação do Universalismo”, sobre as epístolas de autoria verificada do apóstolo1, a
mensagem de Cristo, sustenta-se por meio da fé subjetiva, enquanto declaração de 
verdade sobre um acontecimento (ressurreição2) e fidelidade a ele na ação, daí por 
diante, e não em legalismo, textualismo ou estrutura de poder. 

Em sua leitura de Paulo, Badiou afirma que “O amor é exatamente aquilo de que a fé
é capaz” (BADIOU, 2009, p.105). Não por acaso, os “Atos dos Apóstolos”, no original 
em grego transliterado, é “Práxeis Apostolon”, raiz etimológica para o moderno
conceito de “práxis”. Igualmente pertinente para a discussão, é a evidência que o 
Evangelho se apresenta como “boa nova”, ou seja, notícia, e com um programa de
propagação.

Desta forma, Jesus e sua comunicação possuiriam um potencial revolucionário, que 
sobreviveu ao que os outros poderes/discursos concorrentes de seu tempo não 
puderam. Se não, vejamos:

O ano de 476 é conhecido como a queda do Império Romano do Ocidente. Tomada
por povos ditos bárbaros, o cosmopolitismo estatal e escriturário romano foi 
substituído pelo feudalismo, com sua organização nuclear patriarcalista e direito
consuetudinário.

Já a apropriação imperialista da Igreja Primitiva seguida da hegemonia (ideológica,
proprietária, política) do catolicismo, pôs em cheque tanto o legado do judaísmo, 
quanto o do helenismo. 

Ao assumir o culto aos santos, o catolicismo romano escanteou a herança ideológica
judaica, pois reassumiu o politeísmo antropomórfico idólatra, cuja negação absoluta 
sempre havia sido o traço distintivo do monoteísmo hebraico, em meio as outras
civilizações mesopotâmicas. Entre os razões distintivas da proibição de imagens de 
Jeová estão o impossibilitar  práticas religiosas fetichistas e salvaguardar de qualquer
reificação o irredutível sagrado no espírito cada ser humano, ou seja, “a sua imagem
e semelhança”

Além do mais, o monopólio clerical sobre os textos, em termos de meio (livros) e
idiomas (grego e latim) reinstaurou a “centralização”, anteriormente mencionada, pela
classe sacerdotal, tanto do ethos judaico-cristão quando do logos  helenístico.   

É historicamente sabido que durante toda a idade média cristãos não-católicos e
judeus foram perseguidos, e este processo só teve seu reverso novamente com o
período do Renascimento, onde torna-se significativa a invenção da imprensa por Johan
Gutemberg no século XVI, ao imprimir a Bíblia, quando esta revolução na Comunicação foi condição sine
qua non ao assim chamado “livre exame das escrituras”, fundamento da Reforma 
Protestante, que marcou a retomada do cristianismo de forma novamente centrada
no monoteísmo trinitário não-idólatra e portanto, não nos moldes dos antigos impérios, 
assimilados e reproduzidos pela igreja de Roma.

Badiou sugere que 

“A questão fundamental é saber o que significa exatamente que haja um único Deus. O que quer dizer 
“mono” no “monoteísmo”? Paulo enfrenta, renovando os termos, a temerosa questão do Um. Sua 
convicção, propriamente revolucionária, é que o signo do um é o para todos ou o sem exceção. Que haja
um só Deus deve ser compreendido não como uma especulação filosófica sobre a substância, ou sobre
o ser supremo, mas a partir de uma estrutura de destinação. O Um é o que não inscreve nenhuma 
diferença nos sujeitos aos quais ele se dirige. Esta é a máxima da universalidade, quando sua raiz é 
pertinente ao acontecimento: somente há Um, assim como  ele é para todos. O monoteísmo somente é
compreendido quando se leva em consideração toda a humanidade. Não dirigido a todos, o Um se 
decompõe e se ausenta”. (BADIOU, 2009, p. 90) 

E trazendo à tona a questão da lei escrita e sua inserção numa cultura de oralidade, 
encontram-se as afirmação de Paulo que “A fé vem pelo ouvir” (Romanos, 10),  “A
letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Coríntios, 3) e “O Verbo se fez carne” (João, 1) e “Se
dois de vós concordarem na terra, sobre qualquer coisa que pedirem, isso lhes será 
feito por meu Pai, que está no céu” (Mateus 18). 

O método de Jesus e dos cristãos até hoje, para conversão, é fundamentalmente oral.
Pode ser significativo que o discurso em defesa do valor da Bíblia tenha notável
preferência por apresentá-la como “palavra”3 e não como “texto”: As "escrituras" são
importantes apenas enquanto suporte do "verbo".    

De acordo com Badiou, é pelo ato comunicativo do testemunho de fé de um ser 
humano para outro, que se possibilita a preservação da verdade enquanto fidelidade 
ao fato e a autenticidade da abertura ao próximo, enquanto “semelhante”, universal, e
não “o outro”, particularidade encerrada em um indivíduo.

“Não se trata de maneira alguma de fugir do século, é preciso viver com ele, mas sem se deixar formar,
conformar. É o sujeito que, sob a injunção de sua fé, deve, muito mais que o século, ser transformado. 
Paulo nos diz: é sempre possível que se pense no século um pensamento não-conformista. Eis o que é
um sujeito, é ele que sustenta o universal e não a conformidade”. (BADIOU, 2009, pp.128 e129).

Tal perspectiva, num contexto ideológico da comunicação, no mínimo, desautorizaria:
1. a razão instrumental, mal das tentativas revolucionárias do século XX e fomentadora
de totalitarismos, segundo a escola de Frankfurt, e 2. fundamentalismos, mal do
século XXI, que tem o 11 de setembro como sintoma e emblema.

1 Embora todas as quatorze epístolas paulinas presentes na edições padrão das Bíblias cristãs sejam consideradas canônicas, seis ainda tem autoria não-comprovada historicamente.

2 Badiou não aceita a ressurreição de Cristo como realidade histórica e/ou verdade sobrenatural, mas a rigor metodológico, a assume integralmente enquanto categoria fundamental do sistema de argumentação paulino.

3O “logos” de Heráclito reconfigurado pelo autor do evangelho de João: “No princípio era o Verbo” (λογος)



Conclusão


Entre as reflexões propiciadas na tessitura deste trabalho, observar-se que estudar a
comunicação enquanto potencialidade técnica (meios), pode fazer emergir sugestivas
questões a respeito de seus fins.

Tal encadeamento lógico possibilita que nos reportemos à situações mais 
abrangentes de como as sociedades mantêm-se e reproduzem-se, tornando-se
necessário sempre contextualizá-las.

Isto coaduna a reflexão sobre comunicação e seus meios com as atividades humanas
e os seus fins, com suas características e contradições. A importância de conhecê-las
emerge como caminho para o aprendizado, condição necessária à práticas que se 
querem melhores, porque mais conscientes.

 

Bibliografia


BADIOU, Alain. São Paulo: a fundação do universalismo. Boitempo, São Paulo:
2009.

BURKE, Peter e BRIGGS, Asa. Uma História Social da Mídia: de Gutemberg à 
Internet. Zahar, Rio de Janeiro: 2006.

CHILDE, Vere Godon. O que aconteceu na História. Zahar, Rio de Janeiro: 1966.

Novo Testamento Interlinear Grego-Português. Sociedade Bíblica do Brasil, 
Barueri: 2011

http://nathan.com/projects/current/comtimeline.html. Nathan Projects A History of Communications 35,000 BC – 1998 AD. Word Wide Web. Acessado em 09/05/2013.

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