Um Livro Complexo: as “Confissões” de Agostinho

Posted on December 15, 2012

1



O contexto original deste post é o “Desafio Literário dos 60 dias, no Facebook.

É uma auto-biografia em primeira pessoa. Para “sentir o drama” é importante perceber que Agostinho não foi… nem santo católico, nem filósofo medieval europeu.

Ele é um pensador ainda da Antiguidade, no finzinho, nascido em 345, fruto da cultura helenística, para ônus e para bônus.
Em minha opinião, este mero volume derruba a tese central de Harold Bloom em “Shakespeare, a Invenção do Humano”, de que a interioridade subjetiva moderna nasceu praquelas bandas da Inglaterra, lá naqueles tempos.

Mas não vamos começar a “falar mal dos outros agora”, a não ser que eles sejam gnósticos, né?

Ooops! Bloom meio que se encaixa nisso também 😛
Ok, ok, nos vemos dias 22…

Eu diria que, à sua maneira, ele tem todas as paixões, angústias e habilidades humanas que fazem um leitor se identificar com um personagem/narrador qualquer, onde quer que seja.

Agostinho era um rapaz bem-nascido de pai pagão e mãe cristã; foi um daqueles pouquíssimos que cresceu sendo educado, em alguma metrópole da Ásia que ainda fazia parte do Império Romano.

Ele se divertia e aprontava pra caramba, como “mauricinho” que era, mas ao longo da sua vida o lado intelectual foi sendo mais forte e definindo mais e mais seus caminhos.

Sabemos que ele estou com mestres filósofos e retóricos, e que acabou virando orador profissional, pela retórica.

Mas sua vocação era de filósofo:  Ele precisava da verdade, pois de outra forma sua existência e a  vida, o universo e tudo o mais em geral, não fariam sentido (o que ele não podia aceitar), e percebemos o quão dolorosa e infatigável foi sua busca por isso.

Ele necessitava de algo para acreditar e, a partir disso, agir com coerência e virtude.

Infelizmente, como qualquer um de nós, para começo de conversa, ele precisava trabalhar para ganhar dinheiro: e conseguia isto bastante bem como retórico. Melhor: ele ficou famoso. Mas, em oposição à Filosofia, isso se tratava simplesmente  de fazer um cena e convencer as pessoas.

Fora deste pragmatismo, repito, ele buscava a verdade – um discurso real sobre a vida o universo e tudo mais, que fosse alcançável pela razão e pudesse ser seguido.

Ele decidiu aderir a alguns sistemas de pensamento com todo o cérebro e honestidade. O principal deles foi o maniqueísmo zoroástrico, mas o coração dele doía, por que… sem condições, né?

Pode parecer uma ideia muito simples essa do maniqueísmo, mas na realidade, indo aos detalhes, a coisa fica um tanto bizarra. Às vezes há mesmo um senso de “alienação cultural” de nós do século XX em relação ao que ele está falando – e olhe que ele já havia abandonado isso, e fala com desgosto no que costumava acreditar, mas não esconde de nós nem um pouco no acreditava.

A primeira coisa na qual ele teve de deixar de acreditar foi na ASTROLOGIA, porque na Antiguidade “avançada” já se sabia de astronomia o suficiente para se saber que essas coisas de signo eram charlatanismo. Sim, umas duas ou três pessoas tiveram que usar exatamente esta palavra, charlatanismo, com ele.

Isso na Antiguidade. E você aí ainda lendo horóscopo, certo?

Enfim… ele estudou isso tanto, mas tanto, mas tanto, que se convenceu, enfim, era embuste.

E este foi seu primeiro passo para se tornar um homem mais livre, pois todo o misticismo zoroastrista ao qual ele se sentia na obrigação de aderir, no fundo, era um peso no seu coração e o machucava.

Ele percebia que aquilo não era exatamente a verdade, mas sendo o discurso mais “explicador” que ele conhecia… preferia aguentar os espinhos das inconsistências do que abrir mão de tomar a realidade sob reflexão.

Até que ele conheceu ler um filósofo ascético grego um pouco influenciado pelo cristianismo e – puxa! – foi meio como quando eu conheci Terry Eagleton: esclarecimento e gratidão profundos para sempre! Não lembro o nome, mas se você se deu ao trabalho de chegar até aqui e está realmente interessado, consulte a Wikipedia. Embora a Barsa seja melhor.

Voltando, este foi o segundo passo de Agostinho para se tornar menos atormentado sem abrir mão de sua vocação filosófica.
Não lembro mais como ele se converteu ao cristianismo, mas lembro perfeitamente dele narrando o alívio e paz intelectual que encontrou nas Epístolas de Paulo, e tomando as rédeas da própria vida interior e exterior.( Aliás, se você for materialista e quiser entender isto, vá ao que os camaradas Alan Badiou e Slavoj Zizek escreveram sobre as cartas desse Apóstolo).

(Drops culturais sobre o Apóstolo Paulo: “Combati o bom combate” (2 Timóteo 4:7) é uma frase dele. O primeiro – e único – título oficial em grego para “Atos dos Apóstolos” foi Πράξεις των Αποστόλων, que transliterada dá algo como “práxeis ton apostólon”. Isso: Práxis, no final do século segundo. Aliás, buscando-se a etimologia da palavra “camarada”, descobre que um dos seus primeiros usos em português no sentido de “companheiro de luta” vem do século XVI, numa tradução de João Ferreira de Almeida para uma das suas Epístolas (Filemom 1:2).

Aliás, já que estamos nisso mesmo… Sabe aquele conversinha de Nietzsche que se você olhar por muito tempo para um abismo ele olha de volta para você? Trata-se de uma paráfrase do que Davi escreveu há três mil anos atrás, no Salmo 42:7 “Um abismo chama outro abismo”)

Pronto! Fazia dias que eu queria dizer que nossa  formação cultural não começou do nada na Modernidade – e nossos queridos filósofos“fundamentais” da faculdade sabiam disso. Tirei isso de mim! Há! Alívio.

Mas vocês acham que ficou tudo certo com Agostinho quando se converteu, e parou por aí? Não! Depois de parar de sofrer em sua busca filosófica pela compreensão da realidade, seu esforço mudou de eixo: ele passou a empregar todas as suas forças e a sofrer o quanto fosse preciso para se tornar o ser humano que achava que deveria ser após Cristo, bom e virtuoso o suficiente. E talvez por isto mesmo, fica claro que foi a melhor coisa que poderia lhe ter acontecido.

Outro detalhe, é que a Igreja neste tempo ainda não era “exatamente” católica, mas acho que já havia perdido bastante parte da “pureza” primitiva… políticas do Império, como todos sabemos.

Mas, para terminar:

Milagres póstumos, de um falecido que aguarda o Juízo como qualquer outro? Não. De acordo com os Evangelhos, este poder do modelo neo-politeísta dos santos católicos não existe.

Um bom exemplo? Pode ser, sim.

Teologia? Não sei se conheço, acho que não, mas de qualquer modo, prefiro Tomás de Aquino.

Recomendo o livro? Definitivamente, não é para os fracos. E isso, você decide.

Advertisements