Em corujal hegeliano, lobo mau não se cria Ou história de pescador à maneira dos filistinos.

Posted on November 5, 2012

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Oleg explicava à sua maneira tudo o que via. Uma das gaiolas ostentava um cartaz: ‘Corujas brancas não se sentem bem no cativeiro’. Então, eles sabem! E, no entanto, as prendem! Que espécie de coruja degenerada se daria bem na prisão?”
Alexandre Soljenitzine, Pavilhão de Cancerosos

Corujas degeneradas as há de vários tipos, Aliocha Issaiévitch, desde que humanas, claro.

Sobre pássaros em cativeiro, eu sei do Assum Preto, particularmente idealista, imprático e melancólico como todo idealista, mas com seus valores no lugar. Quando preso, não confunde o fim com meios, atitude demasiado humana. Entristece, recusa-se a cantar, e só o faz de dor, depois que cegam-lhe os olhos e já não lhe resta mais nada.

Já as Corujas Brancas, me parecem descoladas e urbanas o suficiente, conseguindo sobreviver na cidade de Maceió, entre o Pinheiro e a Fernandes Lima, pois já vi duas vezes uma delas (ou seriam duas, distintas?) voando aqui perto perto de casa.

(todos os potterianos grita #EDWIG!!!)

Mas o que vem ao caso agora é que desde a adolescência acho graça (por motivos que acho sérios) na observação mal-humorada de Oleg, e sempre encontro situações em que me vêm à cabeça na hora – “corujas degeneradas”.

O que, então, nos trás à semana passada, quando depois de muito tempo, lembrei delas, graças ao que identifiquei como a metáfora de mau gosto mais bem-sucedida no pensamento político dos últimos 500 anos.

Sempre me impressionam muito mal, de maneira quase irredimível, metáforas e comparações sensacionalistas. Para mim, isto é escrita ruim, ideia ruim, ou os dois. E isto é sim, falta de quem escreveu. Para mim, denota falta de substancialidade no argumento, falta de rigor no raciocínio e falta de estética no estilo. Pouco? Tá certo, lá vai: também denota estreiteza de perspectiva.

O exemplo mais típico e mais repetido é comparar com Hitler e com o nazismo: qualquer idiota contemporâeo, com o líder eleito de um país europeu no entreguerras; qualquer autoritarismo de província, com uma ordem totalitária; qualquer pisada de calo institucional, com o extermínio oficial de 6 milhões de judeus; Monteiro Lobato, com Hitler, O Sítio do Pica-Pau Amarelo – sem notas – com Mein Kampf etc…

(Aliás, um colega nosso jornalista, aqui em Alagoas, honesto, companheiro e competente, perdeu o emprego de forma tão injusta quanto previsível ao declarar publicamente “belíssimo texto” a respeito de uma construção malamanhada desta espécie. Foi seu único erro, analisando friamente: um erro de julgamento técnico, a respeito da qualidade de texto obviamente grosseira de seu colega, famoso por “dizer o que pensa” – sem entrarmos aqui no mérito da questão que ele tentava arguir*.

A moral que eu quero deixar com essa historinha entre parenteses é a seguinte: Deve haver um bom motivo pelo qual, há dois mil anos ou mais, tantos filósofos, cientistas e os-dois-em-um insistirem que a questão do método é fundamental #fikadika).

E provavelmente está a única consideração realmente séria e útil deste post inteiro, antes e depois.

Não digam que eu não avisei.

Mas, enfim, voltando à questão central, tudo isso que eu estou, na verdade, apenas tentando explicar, com todas as digressões presentes… tudo isso começou na semana passada, quando… por total acaso, eu estava lendo O Livro de Jó*, aleatoriamente, e me deparei com uma passagem da qual eu sequer lembrava da existência. Antes de passarmos às consequências, vai a citação completa, em tradução Almeida revista corrigida e fiel, absolutamente necessária para vocês sentirem o drama*.

Não me calarei a respeito dos seus membros, nem da sua grande força, nem a graça da sua compostura.
Quem descobrirá a face da sua roupa? Quem entrará na sua couraça dobrada?
Quem abrirá as portas do seu rosto? Pois ao redor dos seus dentes está o terror.
As suas fortes escamas são o seu orgulho, cada uma fechada como com selo apertado.
Uma à outra se chega tão perto, que nem o ar passa por entre elas.
Umas às outras se ligam; tanto aderem entre si, que não se podem separar.
Cada um dos seus espirros faz resplandecer a luz, e os seus olhos são como as pálpebras da alva.
Da sua boca saem tochas; faíscas de fogo saltam dela.
Das suas narinas procede fumaça, como de uma panela fervente, ou de uma grande caldeira.
O seu hálito faz incender os carvões; e da sua boca sai chama.
No seu pescoço reside a força; diante dele até a tristeza salta de prazer.
Os músculos da sua carne estão pegados entre si; cada um está firme nele, e nenhum se move.
O seu coração é firme como uma pedra e firme como a mó de baixo.
Levantando-se ele, tremem os valentes; em razão dos seus abalos se purificam.
Se alguém lhe tocar com a espada, essa não poderá penetrar, nem lança, dardo ou flecha.
Ele considera o ferro como palha, e o cobre como pau podre.
A seta o não fará fugir; as pedras das fundas se lhe tornam em restolho.
As pedras atiradas são para ele como arestas, e ri-se do brandir da lança;
Debaixo de si tem conchas pontiagudas; estende-se sobre coisas pontiagudas como na lama.
As profundezas faz ferver, como uma panela; torna o mar como uma vasilha de ungüento.
Após si deixa uma vereda luminosa; parece o abismo tornado em brancura de cãs.
Na terra não há coisa que se lhe possa comparar, pois foi feito para estar sem pavor.
Ele vê tudo que é alto; é rei sobre todos os filhos da soberba.
Jó 41:12-34

Este trecho é a voz do próprio Deus, dando uma regulada final em Jó, antes de findar a prova , cobrir-lhe de bençãos e fartar-lhe de dias.

Mas isto absolutamente também não vem ao caso.

Este trecho é a descrição do Leviatã.

Foi isto que Thomas Hobbes usou como metáfora para o Estado.

!!!

Caiu a ficha?

O CARA SIMPLESMENTE DECIDIU QUE ESTA ERA A IMAGEM MAIS ADEQUADA PARA DESCREVER O APARATO JURÍDICO-POLÍTICO DA FORMA INSTITUCIONAL RESPONSÁVEL POR REGULAMENTAR NOSSA CONVIVÊNCIA NUMA SOCIEDADE MODERNO-BURGUESA.

UM TIPO DE MONSTRO MARINHO MÍSTICO!

(Ou melhor, a versão mais simplória que ficou no imaginário popular de uma das passagens mais profundamente simbólicas e misteriosas do Velho Testamento… Mas obviamente, eu não sou capaz de entrar nesse mérito, embora, como qualquer leitor minamente competente, eu tenha ficado chocada com tal desarrazoamento metafórico de Hobbes…. isso e a minha firme e histórica antipatia por ele).

E a moral neste trecho é: Nada como ir às fontes para pôr as coisas em perspectiva. #adoro

Ou, em outras palavras:

Hobbes, “veí”, na boa… Leu Tomás de Aquino não? Tinha como usar as palavras do Senhor com melhor propósito não? Tinha mais o que fazer não?

¬¬

Ou, para citar outro filósofo, Serginho Lessa, “- Percebem”?

Se não percebem, eu sinto muito.

Espero que não fiquem com raiva, mas tudo isso foi escrito com o propósito único e exclusivo de eu poder dizer claramente e ser entendida:

Thomas Hobbes, sua coruja degenerada.

Mais especificamente, em forma de filósofo político.

E eu pensava que meu problema todo com ele era só ideológico, “O homem é o lobo do homem”, e etc, porque eu sempre preferi Rousseau e etc, e considero que haja entre os dois antagonismo irreconciliável, e etc…

Mas não… o problema é que o cara tinha mesmo uma paixão muito louca pelo… Estado.

#inadequado

#WWMS – O que Montesquieu diria?

….

Não, “véi”, eu insisto:

… diante dele até a tristeza salta de prazer”.

E ele vai e cruza uma referência dessas com… o Estado.

Certo.

Bem, era só isso.

Mas sério mesmo… no “espírito” (geist) de “uma proposta modesta” (só os fortes entenderão), de agora em diante, eu só vou me referir ao tratado político em questão como o “Baiacú”, de Thomas Hobbes.

#achodigno

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