Zumbis X Bridget Jones

Posted on August 7, 2012

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Post reciclado, escrito em janeiro de 2010. Poderia estar melhor, mas como já foi postado anteriormente duas vezes, em blogs não-individuais, prefiro não alterá-lo. Algumas coisas poderiam estar melhor definidas, ao invés de frouxamente delineadas e até “idealizadas”, mas não a ponto de comprometer o que possa haver de interesse e originalidade nos argumentos propostos.
😉

Clássico é o que sobrevive. Ao longo da História, obras literárias são usadas e abusadas, justamente porque tem em si um potencial de encantamento aparentemente inesgotável, que faz com que cada geração se aproprie delas para os fins que mais lhe convenham.
Jane Austen, por exemplo, é uma sobrevivente. Em sua breve existência (1775-1817) numa cidade campesina e tranqüila de Hampshire, Inglaterra, ela foi responsável por escrever alguns dos romances mais elegantes da literatura universal.
O fato de eles servirem de arquétipo para as comédias românticas mais rentáveis do pós-modernismo pipoqueiro (década de 80 para cá, digamos), em nada afeta sua qualidade distinta. Ainda que dêem margem a este tipo de abuso – pelo fato de suas heroínas geralmente alcançarem a felicidade, e esta infalivelmente significar casamento com um gentleman rico – eles continuam sendo brilhantes. Porque? Bem, há de se convir que só algo extremamente autêntico pode, ao mesmo tempo, interessar e resistir a um garotão americano de trinta e poucos anos que resolve pôr zumbis na história.

O teste do zumbi não é algo que muitos autores sequer mereçam, e Jane Austen simplesmente passou. É possível imaginar alguém se importando em zumbificar um escritor medíocre e monodimensional como Sidney Sheldon? Creio que não!

Seth Grahame-Smith não é um autor nada bonzinho, nada suspeito. A primeira vez que leu uma obra da escritora britânica no seu curso de literatura inglesa numa faculdade americana teve extremas dificuldades com a linguagem. Seus livros anteriores de não-ficção são a respeito de filmes pornô e de terror. Em Pride and Prejudice and Zombies, ele reescreve o mais popular dos clássicos de Austen com cenas de artes marciais e esmagamento, em meio à peste comedora de cérebros que assola a ilha dos bretões.
Zumbis são a personificação do trash, e de certa forma, extremamente anti-burgueses. Quando escreveu seus romances, Jane Austen estava desmistificando a idéia de amor romântico e reagindo aos excessos de sentimentalismo da estética gótica/ultra-romântica, a todo vapor no seu tempo, tendo em autores como Ann Hadcliffe (Os Mistérios de Udolpho) e Horace Walpole (O Castelo de Otranto) seus expoentes literários mais populares.
Seth Grahame-Smith, com seu Pride and Prejudice and Zombies resgatou a obra de Austen da crescente tendência de torná-la em combustível para fantasias femininas auto-indulgentes de realização pequeno-burquesa, produto do machismo às avessas, nas quais a realização máxima de uma mulher é encontrar um homem que seja tomado não como um indivíduo, mas como uma função: uma mistura despersonalizada de príncipe-encantado e wishmaster, que vai casar com você, te dar uma casa e muitos sapatos enquanto te leva pelo braço sem expressar uma subjetividade própria, porque ele só serve para te adorar e te fazer feliz, certo?
Pois bem, ainda que o nicho de consumo das adaptações cinematográficas e “seqüências” de Jane Austen (coisas como Seducing Mr. Darcy ou Mr. Darcy’s Daughters) tente travestí-la num tipo de Danielle Steel (argh!), retornando-se às obras originais lá estão: linguagem precisa, ironia penetrante, psicologia sofisticada e nenhuma inguldência com a sociedade da época. Resumindo, uma grande escritora, daquele tipo que faz obras de apelo universal.
Após a visão renovada que adquiriu mergulhando fundo na obra de Austen para escrever seu próprio pastiche, o veredito de Smith sobre a autora inglesa é que a sua visão de mundo e estilo literário permancem tão afiados quanto as espadas com que Mr. Darcy e sua Elizabeth massacram os mortos-vivos: “Eu apenas amolei a lâmina”.
Além disso, também há ninjas na história…

 

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