Achei em Thomas Hardy a Gota Serena de John Milton

Posted on May 6, 2012

0



Post sobre cegueira
 

“- Bathsheba, go with your husband!
Nevertheless, she did not move. The truth was that Bathsheba was beyond the pale of activity–and yet not in a swoon. She was in a state of mental gutta serena; her mind was for the minute totally deprived of light at the same time no obscuration was apparent from without.”
Thomas Hardy, Far From the Madding Crowd.

[tradução]

Como nordestina, não há outro modo de falar sobre este encontro da gota serena! Uma expresão tão de cabra macho, no ápice de um romance inglês de 1874? Com o agravante de um itálico do próprio autor? Fiquei invocadíssima para descobrir o contexto original da expressão.

 Graças a Fernando Cavalcanti, sobrinho de sua Tia Besa, amigo de Marília Jackelyne e um interlocutor assaz civil e eloquente, soubemos que o termo

“Na verdade, vem do alemão e do latim… surgiu na lombardia, região italiana onde os invasores germânicos lombardos (De “longobardi”, bárbaros de longas barbas) mesclaram sua raça e sua língua com a dos latinos por eles subjugados. “Gutta”é corruptela de “gutt” (“bom”, em alemão) conjugada com o “serena” (“calma” em latim e italiano). O irônico termo advém do fato de que a gota, em sua forma terminal mais severa, acarreta, após as dolorosíssimas crises, uma sensação de calma e de beatitude. Os lombardos, em vez de dizer “Egli è buono e tranquillo di fase”, pilheriavam, após um gotoso, exausto, adormecer tranquilo: “Lascia fare, Il se trova gutto i sereno…” Eis, segundo Boccaccio, a origem do termo”.

Até este esclarecimento via Facebook, eu só havia encontrado referências à etimologia anglosaxônica – logicamente posterior – que envolve a cegueira de John Milton, “the drop serene”; serena pelo fato dos olhos parecem límpidos e não mostrarem nenhuma diferença de aspecto, como na catarata ou outras formas de cegueira; mas este diagnóstico se tornou obsoleto e indequado em 1850, com a invenção do oftalmoscópio, capaz de examinar o fundo do olho, explicitando as causas outrora obscuras de perda da visão.

A medicina moderna preferiu agrupar a maioria dos casos que correspoderiam à gota serena sob o termo genérico amaurose, do grego αμαύρωση, escurecer (amairôsné, em transliteração), quando se trata de cegueira congênita, temporária ou por causas sistêmicas.

Creio que o modo abespinhado que nós nordestimos usamos o termo – praticamente uma interjeição – ou pior, palavrão, dependendo de quem sejam seus pais, tem mais a ver com a matriz genuinamente latina.

No entanto, Thomas Hardy ainda toma o sentido obsoleto, que havia sido doutamente descrito em 1802, pelo senhor Anthony Florian Madinger, em sua obra fantasticamente intitulada “A Enciclopédia Doméstica: Ou, Um Dicionário de Fatos e Conhecimento Útil, Principalmente Aplicáveis à Economia Rural e Doméstica: com um Apêndice, Contendo Adições em Medicina Doméstica, e as Artes Veterinária e Culinária: o Todo Ilustrado com Numerosas Gravuras e Relevos”.

Sim, claro, após traduzir este título, não faria sentido deixar de traduzir o verbete da Gota Serena também:

GUTTA SERENA
“Gota Serena, ou Amaurose, significa a perca da vista, sem nenhuma outra causa ou defeito visíveis no olho; exceto que a pupila (ou a parte redonda que dá entrada aos raios de luz) geralmente se encontra privada de seu poder de contração.
Numerosas são as causas das quais esta desafortunada cegueira pode surgir; mas as principais delas são afetações nervosas e paralíticas. Contusões violentas na cabeiça; ataques apopléticos; banhos quentes; supressão de catarros, ou evacuações periódicas; cosméticos metálicos; bebedeiras; relampejos súbitos; repulsão de erupções cutâneas; jejum prolongado; exposição frequente aos raios do sol; exercícios e paixões violentos, especialmente terror e raiva; bem como purgativos, reumatismos, espirradeira,estouros de gengivas; perda de sangue copiosa; vomitório; vermes, etc, todos podem ocasionar amaurose.
“Entre os remédios que se acham mais efetivos, para remover esta doença melancólica, estão eletricidade;o banho frio; embrocações quentes, ou compressas contendo tartarato de antimônio, aplicadas à espinha; sanguessugas aos olhos de pacientes pletóricos; o magneto amarrado à nuca e um saco cheio de ferro posto acima dos olhos; agitação do nervo frontal; úlceras articiciais; escarificações, emplastros ou compressas na parte de trás da cabeça, mantidas abertas por um tempo considerável; ventosas; sinapismos, etc, enquanto isso, não se deve permitir que o corpo venha a ficar constipado. Para este propósito, nós preferivelmente recomendamos pequenas doses de kali tartárico com quinino, especificamente, um ou dois goles daquele e dois ou três gramas deste, para serem tomados uma vez por dia, ou mais frequentemente, como a ocasião requiser – Remédios de mercúrio também tem sido usados de forma muito vantajosa; mas eles tem de ser prescritos regularmente.
Há outra doença, chamada catarata (…)”

O original e mais estão aqui.

😉 

Advertisements
Tagged: