Pessoa Versus Massa

Posted on March 19, 2012

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Obra poética multifacetada contrasta com da pobreza cultural contemporânea

(Pequeno Preâmbulo Nostálgico: Algumas categorias de mediação neste texto estão excessivamente… hum… imediatas; pois sim, foi algo escrito na faculdade, por volta de sete anos atrás; tempo em que o mero fato de ter uma idéia crítica original já era bom e válido o suficiente

Mas… detectar sutilezas, tonalizar distinções e desfiar paradoxos, a gente só aprende com a idade.

De qualquer forma, não estaria republicando o texto agora se o achasse realmente imaturo: A maioria das questões, a meu ver, para melhorar, só precisaria de uma reestruturação de estilo em sua apresentação; no fim das contas, ainda acho toda a problemática do texto válida; o problema é, apenas, que ela já deixou de ser novidade para mim há tempos… mas na época em questão, tinha gosto de Eureka! Daí o tom incisivo, que me faz um pouco de falta hoje, pois qual o jovem que precisaria destilar ironia, enquanto tomado pela tenacidade da certeza?

Ainda assim, espero sempre preferir me colocar do lado da rescusa e da revolta ingênua do que do cinismo que participa).


Fernando Pessoa (1888 – 1935), criou uma obra literária de valor imensurável. O que há de mais notável em sua produção é a “heteronimia”, que consite numa forma de criação onde o poeta não apenas usa outro nome para escrever verso ou prosa de estilos diferentes daquele normalmente considerado como seu, mas, além disso, concede a esses heterônimos biografias e personalidades próprias, bem como uma obra individual. Dessa forma o poeta português concebeu o neopagão Ricardo Reis, o vanguardista Álvaro de Campos, e o pastor Alberto Caeiro, tido como o “mestre” de todos, inclusive de Fernando Pessoa “ele mesmo”.

A especificidade do fenômeno vai a tal ponto que além de produção poética distinta, os quatro possuem um projeto estético diferenciando, através dos quais discutem criticamente as obras uns dos outros. Os heterônimos já citados são as facetas principais desse vasto projeto literário, mas na produção em prosa os críticos ainda reconhecem o heterônimo (ou semi-heterônimo) Bernardo Soares, caixeiro viajante alcoólatra e sonhador, autor de “O Livro do Desassossego”, espécie de diário íntimo.

Desta forma, Fernando Pessoa atinge um patamar radical de criação literária, quando a dissocia dos limites tradicionais de um eu lírico de existência restrita aos próprios versos em que se manifestasse; quando desatrela a concepção da obra dos limites de uma personalidade autoral delimitada; e quando tira do ego do poeta a função de núcleo delimitador, enquanto fonte cognitiva primária do que vem a ser recriado literariamente através de ficcionamento e representação (mímese).

Posto isso, podemos dizer que o escritor lusitano é dono de uma obra plena de “autenticidade”. Este conceito, em Literatura, não irá se confundir nem com “criatividade” nem com “originalidade”, pois não se trata de questões de estilo ou de enredo, e sim de o quanto à obra é significativa enquanto valor estético e produção intelectual dentro do contexto social, cultural e histórico em que se insere, seja no momento em que foi produzida, seja no momento em que está sendo discutida.

Em relação à atualidade, a versatilidade extrema de Pessoa deveria servir de lição. Não se trata, de forma nenhuma, de tentar tomar sua obra por molde ou critério comparativo, e sim de refletir sobre o que viria a ser autêntico neste momento onde nos encontramos. Fala-se de uma “crise da arte na contemporaneidade” e postula-se que a estética pós-moderna cada vez mais dilui a fronteira entre obra de arte e mercadoria.

Tal situação é problemática porque a mercadoria é algo que não se constitui num fim em si, mas apenas na satisfação de uma necessidade real ou inventada e imposta pelo mercado através da publicidade; mesmo esses dois tipos de necessidade, em relação aos processos de produção e consumo das mercadorias também não representam um fim em si, servem apenas de mediação na reprodução de capital; além disso, a produção de qualquer mercadoria dentro do capitalismo e as condições obrigatórias de consumo (que pra grande maioria se resumem ao poder aquisitivo do salário) pressupõem algum tipo de alienação do sujeito. Neste sentido, a mercantilização da obra de arte é extremamente nociva, pois os valores estéticos são mediocrizados durante o processo de consumo, e o papel da obra de arte, como expressão e meio de realização das potencialidades do ser humano, fica ofuscado.

Além disso, de acordo com o pensador húngaro Gyorgy Lukács (1885-1871) em seu texto “Velha e Nova Culturas”, o fenômeno da moda, bússola do vai e vem de mercadorias, torna-se uma contravenção em relação à arte, pois o que a moda faz é dizer de tempos em tempos “novas coisas devem ser consumidas”, e quais. Assim, o que interessa numa obra de arte, em termos de mercadoria, não é que ela tenha nenhum valor eminentemente estético intrínseco, mas que seja a novidade ditada pela mídia, ou oferecida em qualquer outro processo via de regra verticalizado e nivelador. Sendo assim, a produção supostamente artística perde toda a sua autenticidade, e já não importam mais os valores que fizeram a humanidade durante toda história considerar determinados poemas, quadros e estátuas como obras perenes, consideradas indistinguíveis dado a sua riqueza de conteúdo e significado.

Agora, retomando a questão mais estritamente literária, podemos observar que esta não escapa aos processos mercadológicos, se adequando à produção massificada e a homogeneização dos padrões do que é convencionado como gosto e ideal. Um bom exemplo disso são as listas de best-sellers, freqüentadas sempre pelos mesmos nomes de autores, donos de uma fórmula, numa relação como a das top-models com suas grifes, que exploram nichos delimitados de consumidores que se autodenominam determinado tipo de pessoa ou membro de grupo cultural, explorando à exaustão (trilogias, geralmente) personagens estereotipados que só “funcionam” em determinado contexto e esgotam todas as suas possibilidades subjetivas e dramáticas em situações-clichê, praticamente se convertendo em instituições, ou fortemente identificados com alguma.

Temos nomes como de Sydney Sheldon, Danielle Steel e Paulo Coelho escrevendo sobre órfãos, múmias, guerreiros, gordinhas simpáticas, mafiosos e extraterrestres, que protagonizam histórias transformadas em filme, caderno, batom, cereal, trilha sonora e pasta de dente, trazendo, assim, para o público consumidor uma série de objetos através dos quais seu universo evasivo preferido se aproxima de sua vida quotidiana, e os ajuda a abdicar da difícil tarefa de ser um indíviduo único, inserido em um contexto social específico, presa de condições materiais e ideológicas determinadas, em favor da condição geral de romântico, durão, dark, sexy, místico, etc… E é necessário à manutenção da atual conjuntura que o entretenimento seja narcótico.

Dessa forma, faz-se necessário que tais obras vendam milhares e se repitam em série, como variações do mesmo tema, trazendo mudanças apenas de espaço e tempo, tanto pelo fato de não terem nenhuma fundamentação capaz de as cristalizar enquanto patrimônio cultural (consomem-se no próprio ato do consumo, são descartáveis) quanto pela necessidade de mascarar o vazio dos seres e das situações, para não se reflita a condição dos leitores que tentam identificar-se com eles, se alienando em relação às suas condições existenciais objetivas e subjetivas, ao estagnarem-se nesse tipo de leitura na tentativa de encontrar valores autênticos no consumo de bens simbólicos que duram apenas até a próxima temporada de moda.

Como não chamar essa espécie de escritores de inautênticos quando, no conjunto da obra de um Álvaro de Campos só, o leitor se depara com “o poeta decadente”, “o engenheiro sensacionista”, “o engenheiro metafísico” e “o engenheiro aposentado”? Como não lhes negar o epíteto de artistas, se um Fernando Pessoa só se desdobrava em camponês naturalista, burocrata helenista, rebelde decadentista por opção, trabalhador urbano nefelibata bêbado e ainda assim não perdia o “ele mesmo”?

Sujeito autêntico… se perfazia em quantos quisesse sem precisar de marcas nem marketing para isso.

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