Nosso Divino Maldito

Posted on March 12, 2012

0



Há um certo escritor mineiro que foi o amor platônico de Clarice Lispector e rival ferrenho dos romances regionalistas. Ao mesmo tempo homossexual e profundamente cristão, Lúcio Cardoso (1913-1968) desenvolveu conflitos existenciais dilacerantes numa prosa requintadamente aristocrática. Sem nunca ter sido realmente popular com o público, causou reações diversas (e extremas) na crítica do seu tempo.

A grande questão sempre foi sua marcada preferência por explorações subjetivas e cenários underground, como a decadência das outrora senhoriais fazendas do interior de Minas (A Luz no Subsolo, A Crônica da Casa Assassinada) ou os antros de droga e prostituição nos morros do Rio de Janeiro (Inácio, O Enfeitiçado).

No entanto, em relação aos outros autores da época, sua posição é heterodoxa: ao invés de explorar realisticamente a cor local e as classes sociais com a flexibilidade estilística típica da prosa modernista, ele preferia envolver os personagens numa atmosfera pesada e levá-los através de jornadas sombrias e obsessivas, entre a danação e a salvação, onde qualquer lugar fica entre o céu e o inferno.

Ao recusar tanto o exotismo do “povo” no campo quanto o nivelamento da classe média urbana, debatendo-se entre a nostalgia estéril e o individualismo sem rumo, Lúcio Cardoso tornou-se um paradoxo na história da Literatura Brasileira, um problema para o didatismo dos livros (que geralmente o rotulam como “católico”), mas atingiu questões universais que o aproximam mais de escritores europeus, como os clássicos Kafka e Dostoiévski, ou à corrente existencialista cristã da França de sua época.

A boa notícia é que ele acabou se tornando um favorito entre os acadêmicos. Dentre as dezenas de teses e dissertações que tencionam revalorizar sua obra, algumas têm virado livros, tornando mais acessíveis ao público alguns aspectos específicos de uma obra por si multifacetada e complexa. Lúcio Cardoso também foi poeta, cineasta, narrador infantil, cronista e finalmente pintor, após sofrer um derrame que o tornou afásico, devido ao abuso de álcool e pípulas.

O Diário Completo (José Olympio) dá uma visão desse artista múltiplo, também um homem sintonizado com as questões do seu tempo, fazendo observações argutas sobre a produção de arte no país, dando como exemplo sua inglória luta com a burocracia para financiar o teatro e o cinema, a batalha quotidiana de um ficcionista que precisava se “amesquinhar” em redações de jornais para sobreviver, os paradoxos do desenvolvimento, entre um campo arcaico e atrasado e uma cidade cujas grandes massas se modernizavam mediocremente, além de comentários afiados sobre política: “Nenhum escritor que se preze viveu à sombra do Estado; muitos, ao contrário, morreram contra ele. Que significa proteger oficialmente um Dickens, um Balzac, um Proust? Trucidá-los sob que glória mesquinha e humana? Esta história de escritor sobre proteção do estado é uma reminiscência de aspecto puramente totalitário – e somente por isto é que veio encontrar eco na velha mente viciada do Sr. Getúlio Vargas.” (maio de 52)

A escrita de Lúcio Cardoso é profundamente enigmática e envolta em mistério, fincada nos dramas da sua própria personalidade, muito peculiar. Nela, não há necessidade de um pacto para atingir o mefistofélico; ele está em nós mesmos, bem como ânsia por redenção. Parece improvável que vá se tornar um clássico naquele sentido obrigatório dos vestibulares, porém sua obra pulsante de vida, paixão e morte o tornam um mestre do fascínio, voz única nas letras brasileiras. Lúcio Cardoso não é um autor simples. Mas, como todo grande artista, nos legou uma elevada oportunidade de humanização. 

Advertisements
Posted in: Uncategorized