Pós-Modernismo avant la époque

Posted on November 16, 2011

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A fama de Mikhail Bulgakóv se deve principalmente ao fato de ele ser um daqueles autores sufocados pelo stalinismo, cujo trabalho dissidente permanece como grave condenação do regime. E alguns literatos de primeira viagem e liberais cult até supõem que isto seja razão suficiente para confundir O Mestre e a Margarida, em sua ousadia fantasiosa, com uma obra prima.

Há controvérsias, principalmente de gosto.

Mas o romance desperta interesse analítico, mesmo em quem, a esta altura, já se entendia com o satisfatório passatempo de botar o dedo moral na cara de Stálin.

Uma comparação formal esclarecedora pode ser feita entre a narrativa de Bulgakóv e seu “primo” do Realismo Fantástico, Cem Anos de Solidão.

Escrito da perspectiva de um assim chamado Terceiro Mundo, o livro de García Márquez lida com a modernização tardia e autoritária de uma periferia do capitalismo. Macondo lá está, mágica desde o início, amoldando o romance. Mas o “avanço” e a riqueza chegam destruindo a velha ordem encantada da comunidade, da família e da própria narrativa.

Tal desfecho tem um sentido claro e veemente de crítica social, sem nenhum recalque em relação à luta de classes e ainda sob o grande mote do Progresso Faustiano que, de acordo com Marshall Berman, é o paradoxo fundamental das obras modernistas desde Goethe. Além disso, a ruptura da ordem mágica apenas implica num fim consequente para o lirismo realista, mas não em ruptura formal com o estilo fundante da obra. Não se trata de narrativa pós-moderna.

A Rússia de Bulgakóv, similarmente, é uma ex-periferia da fase anterior do capitalismo, tendo sido modernizada tardiamente, mas a toque de caixa, sob a ordem totalitária do regime soviético. Só que análise de conjuntura importa pouco para se ler O Mestre e a Margarida. O processo histórico macro, em curso globalmente, não lhe serve de fomento, como para Gárcia Márquez.

Ao contrário, o que temos em Bulgakóv é o retrato cristalizado do mais típico momentum soviético: corrupto, filistino, sicofanta, superficial: opressor, em fim.  Nisto, seu livro ainda retém o melhor da tradição realista e modernista russa. Não foge – e, para seu crédito, não tenta fugir – dos conflitos e motivações pertinentes à sua contemporaneidade; os personagens e suas vidas, os dramas e as limitações, estão essencialmente informados pela realidade da sociedade moscovita na época, formal e censória.

Mas a obra, escrita ao longo da década de 30, é notória precussora do Pós-Modernismo, ou talvez já pós-modernista em si mesma, sendo este o segundo fator (o de apelo acadêmico) responsável pelo seu prestígio. Senão, vejamos:

O Pós-Modernismo sente-se mais confortável em estabelecer uma meta-narratividade,  que lhe permite rodear ironicamente, e a perder de vista, uma narrativa ideal que é incapaz de realizar. O protagonista não consegue escrever o romance sobre Pilatos atormentado, para sempre a perguntar-se o que é a verdade. Um Pilatos que usa a desculpa de uma especulação semiótica para se evadir da questão do engajamento, justo quando ela se fazia mais premente, da mesma forma que determinados intelectuais franceses em década passadas e quase todo mundo hoje em dia, but I disgress Isto é uma deliciosa sopa com mosca para a ironia teórica pós-modernista que vai se pôr acima da questão dizendo que a pergunta é inválida, pois não há verdade, apenas shuffling sígnico, e se auto congratular por isso. (Congratulações também para o autor, segue-se). Na obra, a causa disso tudo é a política cultural do regime, como de fato, provavelmente seria. Mas eu também acho que a culpa foi do próprio Bulgakóv, e eu preferia ver o filme do Pelé, digo, ler o livro do Pilatos. Sendo esta mais uma oportunidade de abrir mão de toda a responsabilidade política, ao culpar a própria natureza estrutural do poder. Mas na boa, Pôncio Pilatos tem mais carisma que qualquer outro personagem do romance, incluso o protagonista.

Mas o relevante não é julgar isso como escolha ideológica e/ou teórica que Bulgakóv, obviamente, sequer poderia conceber. Ao contrário de nós todos, né?. Os aspectos observados são importantes apenas para clarear especificidades que permitem caracterizar O Mestre e a Margarida como um romance pós-moderno, ainda que anterior a Pós-Modernidade temporal.

A primeira destas características marcantes é a hibridez de gênero. Não se pode dizer que este livro pertence ao realismo fantástico desenvolvido, principalmente, por escritores latinos seus contemporâneos, calcados em categorias sociais que o pós-modernismo viria a rejeitar.

Pelo contrário, o que concede a O Mestre e a Margarida sua especificidade formal é o uso da hibridez como recurso de estruturação: no plano do conteúdo e no plano da narrativa iniciada como mimese sob o stalinismo, irrompe o fantástico como escolha estética e substância narrativa. Há uma negação e uma disrrupção da razão existencial e política e da forte tônica realista da tradição literária russa.

O drama sócio-político sucumbe a uma saída fantasiosa e o livro, em consequência, tem um desenlace besta e superficial que se tornou típico da literatura contemporânea: não consegue sustentar uma narrativa realista até o final? Muda o tom e mete algo “mágico” no meio***. Na sua impossibilidade de ficar com o professor pobretão nas mesmas condições realistas que definiram o cenário e o contexto do romance, a senhora sofisticada e rica faz um pacto com o diabo em pessoa e vira bruxa. Ao drama humano, também não se dá uma resolução, ele se dilui na saída fantasiosa. Pois é, o livro fica desarrazoado e começa a fazer raiva beeeem antes do fim. Isto subverte a própria narratividade. A delicada noção de balanço metafísico que havia surgido com a figura do gato diabólico e seus comparsas de malignos intentos dá lugar à festa infernal na qual quase todos tomam parte. A narrativa se desdramatiza. Os valores perdem sua carga literária de catarse; o motivo de conflito profundo e ético que perpassa a tradição literária ocidental desde o drama grego se dilui, em outra manobra característica pós-moderna: tornar superficial, gozável e consumível quaisquer material significativo que pudesse implicar num desafio ao individualismo hedonista.

O amor, o mal, a honra e a culpa são substituídos por fantasmas bebendo vinho, música num glorioso salão, a figura feminina sexy proporcionalmente à sua recém-adquirida superficialidade, mais toda sorte de histrionismo gótico – Gótico do qual, já disse Terry Eagleton, o pós-modernismo herdou sua alergia à profundez. Sintomático. Entre isso e o filistinismo impraticável da literatura oficial (quem poderia culpar o autor?), a narrativa de Bulgakóv vira uma celebração infernal. Ninguém está bem, nem vai ficar, mas temporariamente todos gozam. Vence a lógica do entretenimento, a grosseria novelesca do espetáculo. O fim é o contrário de memorável. Mal lembro, e não me importa lê-lo novo para explicar a vocês, porque me perdura uma impressão de chatice mal-resolvida e Andréi Biéli é muito melhor 😛.

Para o caso de se querer mesmo uma história dessas, sugiro um gótico legítimo e pronto: The Monk, de Matthew Lewis.

Em O Mestre e a Margarida esvai-se o que ainda seria caro a um Kafka ou um Borges. Mas, por achar que o Mestre-escritor-protagonista não é o único personagem que Bulgakóv usou para falar sobre si, ainda preferia ler o romance do Pilatos.

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NOTAS

***Estou apontando especialmente para Martin Page, em Como me Tornei Estúpido. Estava a amar o livro. Mas o final, com um fantasma e um romance do nada, desapontou.

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Posted in: CRÍTICA