CERNtretenimento – Ou de como a Estética pode celebrizar a Ciência

Posted on October 17, 2011

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Mais cedo ou mais tarde o CERN, Laboratório Europeu para Física de Partículas, iria capturar o imaginário pop do século XXI.

O “mais tardar” veio neste setembro, com a polêmica de neutrinos possivelmente mais rápidos que a luz, embora ainda menos velozes que a suculenta repercussão na mídia: um respeitado jornal europeu chegou a comentar que, mesmo com todas as ressalvas ao experimento, no fundo todos gostariam que ele estivesse correto, só pela perspectiva aventurosa de começar uma nova Física.

O mais cedo, no entanto, foi em março de 2010, quando o Grande Colisor de Hádrons (LHC) começou a acelerar partículas em condições semelhantes às do Big Bang – embora em escala infinitesimal.

Mas a fama já havia chegado antes mesmo, graças ao best-seller Angels&Demons do famigerado Dan Brown: o time de comunicação do centro de pesquisas se viu obrigado a pôr no ar uma página de FAQs sobre a exatidão do livro, e a lidar com um súbito aumento das visitas não-especializadas às suas instalações físicas.

Após o filme, a seção Angels&Demons virou hotsite no portal do CERN, a demanda cresceu ainda mais, e foi organizado um tour sistemático pela parafernália dos grandes experimentos. Já não é mais possível para os visitantes passearem no túnel subterrâneo onde as partículas colidem, mas a assessoria achou por bem anunciar publicamente que iria se encarregar de manter o passeio interessante.

Então, começou a ficar claro que tendo um “potencial de entretenimento” aliado à própria imagem, tornava-se possível e conveniente para o CERN adotar uma estratégia de gestão de marcas, ou branding, para controlar a crescente popularidade midiática e geri-la da forma mais eficaz e vantajosa possível.

No entanto, a questão vai bem mais além de “sustentabilidade turística”. Um dos pontos frisados pelo atual diretor geral Rolf Heuer é a natureza global que o CERN tem conquistado. Neste setembro, por exemplo, Israel se tornou o primeiro membro não-europeu da organização. A notícia é particularmente significativa, pois a ciência de base costuma perder recursos quando o complexo industrial-militar é prioridade e, falando estrategicamente, tanto melhor.

Dada a atual situação européia e da economia mundial, o maior preocupação do CERN é o financiamento. Aqui, há três fatores a serem ponderados: Governos mais à direita, tendência na Europa hoje, têm tradição história de cortar as verbas para educação e ciências em geral; pior, em tempos em crise, as pesquisas não-aplicadas sofrem com a diretriz de pragmatismo econômico, de alocar os recursos em aplicações que parecem dar retorno mais rápido, responder à demandas do mercado e visar a fins práticos desde o começo; e por fim, em infeliz sintonia com a situação européia, os investimentos mais estratégicos em tecnologia hoje estão ocorrendo em países emergentes, que apesar da preocupação com formação científica, não dispensam pressão política e ideológica que direcione o fazer científico para inovação e desenvolvimento econômico.

Já o CERN, foi um projeto de décadas, pensado desde o começo para tratar de questões fundamentais da ciência, nos níveis mais básicos da matéria. Não seria incorreto dizer que a instituição realizou um ideal de “conhecimento pelo conhecimento”, tendo surgido numa época de política favorável, ligada ao auge do estado de bem-estar social. Já em relação a nossos tempos, não é clichê, mas característica sua, que a publicidade faça o produto, ou pelo menos determine sua efetividade no mercado.

Isso é um desdobrar lógico da Estética da Mercadoria, que começou com a Revolução Industrial, fez-se presente no desenrolar do século XX e se afirma como a tendência cultural dominante e determinante de nossa época.

Ela se manifesta principalmente no “valor simbólico” das coisas, ou seja: a quantidade de apelo emocional e satisfação abstrata determina muito mais o desejo por uma coisa do que o conteúdo racional e utilitário dela. É quando o apelo da satisfação se traduz em algo subjetivo. Trata-se de gerar capital cultural, trabalhando a marca como valor estético, e se ela possui ou atinge isso, pode-se dizer que ela tem sucesso***. É claro, nem todo tipo de produto, serviço ou instituição tem esta necessidade, mas para o business contemporâneo, nos casos em que imagem não é tudo, no mínimo,  serve como poder de barganha.

Assim, quanto mais o CERN vir a se assemelhar a um patrimônio cultural da humanidade e cultivar a aparência de laboratório-celebridade, relacionando uma discreta medida de entretenimento à sua imagem, mais seguros financeiramente estarão. É claro, dado o perfil da instituição, o padrão desta possível diversão já captura uma dimensão intelectual, por isso a parceria natural com as assim chamadas Artes – é… daquele tipo feito por artistas, e não por celebridades.

Para trabalhar isso, a instituição apontou um Conselho Cultural, e em quatro de agosto, anunciava política específica, chamada Great Arts for Great Science, instituindo uma residência artística e prêmios, Collide@CERN. Ideia similar já tem sido posta em prática pelo aeroporto de Heathrow, em Londres, que convida escritores para “viverem” uma semana lá e depois publicam o resultado, distribuindo alguns milhares de cópias aos passageiros. No CERN, no entanto, serão contempladas outras linguagens artísticas além da escrita.

Este ano, o foco recai sobre arte digital, dança e performance, e os dois primeiros dos três meses da realização dos projetos envolvem um mentor científico lá, na própria toca do coelho branco da física de partículas.

De acordo com Ariane Koek, a artista coordenadora desta primeira temporada, “será uma forma de criar uma visão completamente abrangente do CERN para o mundo lá fora, e em diferentes plataformas – do palco e projetores às telas e orquestras – mostrando o status do CERN como uma força de destaque na Cultura, que se beneficia da casa do LHC e do que alguns consideram como, possivelmente, o maior e mais significativo experimento na Terra”.

Estética da Mercadoria à parte, tenhamos esperança que unir ciência de base e Arte venha a ser uma estratégia vitoriosa sobre a mercantilização dominante da cultura e a ressurgente onda de filistinismo anti-intelectual que nos assola.

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NOTAS

***Caso da Apple, cujos fanboys confundem a imagem da marca com a própria.

o Cosmólogo brasileiro Mário Novello sobre A Ciência pela Ciência
o Serie em vídeo-doc bonito e pessoal de um grupo de pesquisadores britânicos no CERN.
o CERN Love: blog de insiders engraçadinhos.
o Heathow Airport Writer in Residence.

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