A Grande Música nos Filmes

Posted on October 12, 2011

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Gravar uma fita k7 para alguém costumava envolver dedicação e carinho em escolher as faixas, planejar a ordem certa… isso era essencial para que o resultado pudesse guardar e transmitir “aquelas emoções e aquele efeito” que ouvir essas músicas causassem em você. Era uma tarefa prazerosa, que implicava até numa dimensão de cumplicidade.

Definir o programa de um concerto de música clássica segue a mesma lógica, com um algo a mais: não se trata só de emoções, mas de um evento que também se constrói com conceitos. O essencial é o sentir pelo ouvir, mas o como fazer é uma questão para o intelecto.

Isso vem a propósito das Quintas Sinfônicas de hoje, 13/10. A Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Alagoas, sob o Maestro Alípio Martins, programou um repertório para agradar aos amantes e agarrar os neófitos: junto dos Barrocos de quem todos gostam, Vivaldi, Bach e Haendel, serão executadas obras em homenagem ao cinema, como a consagrada trilha de Star Wars, ao lado de música popular como Tom Jobim e Djavan. (Mas que fique claro que eu vou pelo Prokofiev).

Isto é extremamente simpático para um público que ainda encara música instrumental como novidade; trata-se de uma estratégia que tem a virtude do didatismo, mas sem pecar por facilidade.

Quase ninguém sabe, mas a popularidade das trilhas sonoras dos cinemas está precisamente ligada não apenas à música clássica – aquela coisa de outro mundo – mas à sua versão mais avant-guarde, teórica, e revolucionária jamais composta. É surpreendente que as trilhas sonoras do que há de mais popular no cinema do século XX sejam herdeiras diretas dos movimentos Modernista, Atonal, e Serialista da música erudita.

O que, teoricamente, era para ser “o mais difícil de se ouvir” acabou se tornando o mais popular. Compositores como Schoenberg, Shostakovich, Szymanovsky e Benjamim Britten, pelo nome, parecem restritos a pessoas já interessadas no assunto, mas na realidade, o tipo de sonoridade que os distingue de seus predecessores se tornou natural para uma parte significativa do mundo: basicamente, aquela afetada por Hollywood, especialmente nas produções anteriores ao recente advento da música eletrônica.

Num delicioso paradoxo, uma estética geralmente suspeita de elitismo ou intelectualismo acabou sendo completamente apropriada pela cultura de massas, tanto que a pior coisa que pode acontecer ao se ouvir esse tipo de música pela primeira vez é uma sensação de estranheza porque “está faltando o filme”. Mas esse efeito é bastante atenuado para quem tem a oportunidade de ter este contato vendo uma orquestra em ação. A experiência ganha uma dimensão extra e se torna incomparavelmente interessante através do ao vivo, com a presença do elemento humano.

E ainda que programa desta noite não vá incluir obras tão “pesadas” quanto a dos compositores vanguardistas citados, seria educativo elucidar a dimensão mais profunda do conceito e suas ramificações históricas:

A obras do Modernismo em diante muitas vezes soam difíceis, porque suas emoções não são a de um individualismo subjetivo. Ela é melhor em exprimir uma angústia generalizada do que em ser sentimental. Lembra um filme tenso, porque nasceu de uma sensibilidade marcada pelas guerras mundiais e mecanização da vida. Ela reflete o começo de uma era em que os indivíduos passaram a experimentar alienação social e mecanização do quotidiano, perdendo referenciais de cultura e sentimento, e passando a experimentar um estilo de vida muito mais solitário e sem rumo, ao mesmo tempo em que perdiam dimensões de liberdade subjetiva e espiritualidade. A sociedade instaurava um quotidiano superficial e utilitário e a Arte pressentia distopias opressivas. Trata-se de uma música que descende de Kafka, mas acompanhou muito bem Huxley e Orwell.

A platéia de Maceió vai ter uma experiência bem mais “luminosa”. No entanto, a idéia de remeter o público ao cinema lhe concede uma oportunidade de despertar um olhar renovado para um fenômeno cultural que influencia há décadas nosso mundo.

Parabéns por isso, Orquestra da Ufal.

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NOTAS

 

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