Rachmaninoff é diferente de Prokofiev

Posted on September 22, 2011

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Não posso dizer com certeza que quero ir ao Projeto Quintas Sinfônicas desta semana, mesmo dando todo meu apoio moral, emocional e estético à iniciativa da Orquestra da Ufal. E isto porque, paradoxalmente, sou uma das pessoas que mais se importa com música clássica no meu círculo de convivência, real e virtual.

Talvez, se eu não fosse uma apreciadora do gênero, não estivesse tão “invocada” com determinado detalhe, a ponto ter mais certeza sobre escrever este texto do que sobre ir ouvir a música que eu amo. Muito.

Para explicar minha posição preciso esclarecer que 1. Sou jornalista. 2. Sou público-alvo consumidor do evento.
Portanto, com risco de parecer pedante, mas sem medo de fazer o que julgo necessário, vou dar uma lição básica aos meus colegas – alías, desconhecidos, neste caso – que se encontram na obrigação profissional de escrever sobre música clássica, mesmo que não se importem um segundo com isso no fundo de seus corações:

Na pirâmide invertida da música erudita, a informação mais importante é o repertório.

Fiquei de mal humor – de novo; ainda mais uma vez – quando fui me informar sobre o evento desta semana porque – mesmo que sua presença tenha sido satisfatória nas agendas culturais impressas e online, sejamos justos – dentre todas as suas edições, só encontrei menção aos compositores executados em uma delas, e de forma truncada: o nome do compositor barroco Sebastian Bach foi citado apenas para explicar o fato de haverem dois solistas de violino – e não porque este compositor específico (e todos os outros também) interessa objetivamente a todos que tem o mínimo interesse em ir a um concerto. Nem no blog do próprio evento se encontra esta informação.

Por exemplo: sobre uma das edições passadas, escreveu-se que haveria um solista de trombone. Mas o público não foi informado se este músico solaria numa sinfonia ou concerto, o que faria toda diferença em termos de repertório e vontade de ouvir música. Mas, sinceramente, dessa vez como jornalista, perguntaria a fonte do release pelo menos o simples “porque? deste destaque. Como público-alvo e repórter, entendo que a resposta seria um tipo de coisa extremamente simples, e ficaria satisfeita em saber.

Vamos deixar mais claro: Vai ter um show de rock. Vai ter um show de reggae. Vai ter um show de rap. Ninguém publica isso só assim, porque o fã pergunta “Sim, mas quem vai tocar?”. Com a atração, você sabe o estilo. Tratando-se de uma orquestra, é pelo compositor que você sabe o estilo. Juro. Os expectadores precisam ser informados sobre o estilo específico da atração, ainda que não haja margem de dúvidas sobre o gênero de espetáculo. Quem vai ouvir música sem apelo para as pessoalidades de gosto, ou é crítico ou estudante. Roqueiro do Grind Core não quis ir pro Speed Metal. Regueiro do Melô não quis ir pro Rasta. Euzinha do Prokofiev posso não querer ir pro Tchaikovsky, percebem?

Então, porque o público de música clássica de Maceió não mereceria uma atenção mínima no conteúdo da informação que lhe é repassada?

Talvez, este descuido tão básico, que é omitir o nome dos compositores, se baseie no mito desinformado de que “música clássica é tudo a mesma coisa”. Isto é um erro, e corrigi-lo não implica em adotar pedantismo. Senão vejamos:

Vivaldi, Mozart, Beethoven e Wagner. Todo o mundo os conhece, no mundo todo, há pelo menos dois séculos. Até o cunhado da prima da vizinha sabe do que se trata, caso você pronuncie um nome desses, nem que seja do comercial de sabonete. O público em geral não se sentiria intimidado, porque tal informação não é obscura.

Mas – até que enfim, o X da questão toda! – para quem anseia por este tipo de evento, esta informação é essencial, é preciosa. É a diferença entre estar esperando animada e ansiosa e entre estar aqui enchendo você, caro colega escrevinhador.

Pessoalmente, eu enfrentaria o trânsito da Fernandes Lima – ida e volta – com toda a felicidade para ouvir um repertório de Vivaldi e Beethoven. Mas já nem sairia de casa se fosse para ouvir Mozart e Wagner.
Entenderam? Informação de qualidade é a que permite discriminar e escolher. Até para nós, gente assim!
Sem contar que o público de Maceió merece isso. E sabem porque? Supresa!!! Porque há um público cativo de música clássica nesta cidade.

Lenda urbana? Não. Qualquer um que duvide, dirija-se ao IGHAL, Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, às 10 horas da manhã, sem dinheiro algum no bolso, no primeiro domingo de cada mês. Mas chegue cedo, incrédulo, senão pode ficar sem ter onde sentar. É que moradores maceioenses, de todas as idades, classes sociais, e ideologias, como não se vê em nenhum outro evento, dirigem-se para lá, religiosamente, para apreciar esta música que não encanta apenas gerações, mas séculos e séculos, e povo inteiros. Já houve ocasião de estarem lá, democraticamente sentados no mesmo espaço, o Senhor Governador Téo Vilela e alguma adolescente de quatorze anos que mora no Tabuleiro, acordou cedo, pegou ônibus e ainda arrastou uma amiguinha com ela.

Outro exemplo, em 2009, foi uma orquestra educativa formada por jovens baianos que faz música com absoluta responsabilidade e lotou (sim, lotou) o Centro de Convenções, com seu concerto a 1 real. Foram aplaudidos de pé várias vezes, e tiveram que dar quatro “bis” (que em música clássica, chama-se encore). Lavaram a alma de mil pessoas, inclusive crianças de uma ONG do interior que estão no mesmo caminho. E passou no jornal local.

As Quintas Sinfônicas são uma iniciativa para que esta alegria não se resuma a uma vez por mês mas a duas, pelo menos. Nesta edição, por exemplo, participa Eliezer Setton. Músico da terra, popular, querido. Música clássica é uma questão de amor, de qualidade, de agregar. Não tem nada a ver com elitismo ou velharia.

Enfim, vamos divulgar de forma mais criteriosa, como já é feito com os Concertos aos Domingos. Quem “vai em cima” dessas notícias geralmente são pessoas que amam essa música, e por isto mesmo, têm a suas preferências e se importam com os detalhes.
Importam-se profundamente… até a ponto de escrever tudo isso 😉

Obrigada pela atenção.
E espero #solidariedade.

NÃO IGNOREM A DIVULGAÇÃO DOS COMPOSITORES NAS PRÓXIMAS EDIÇÕES.

Vilma Naísia Xavier
Bachiana e metaleira.

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Posted in: METANOIA